Cyd Ramos

domingo, 15 de novembro de 2015

Meu grito

Porque me sinto assim tão triste,
Se fora, minha vida continua feliz?
Sim, feliz aos olhos de quem me vê,
Não entram no fundo de minh’alma.
Sofro das coisas que todos sofrem,
E morro de pena de mim mesmo.
Corro, esperneio e grito por socorro,
Cuspo mazelas que no caminho encontro,
E sacudo a poeira de minhas sandálias.
Ah, mas não adianta fazer tudo isso,
Com tanta lama que se espalha na rua,
No rio, na fazenda, nos salões e tribunais.
Sapatos se encharcam, pés se afundam,
Lama continua a tomar conta do mundo.
Poderes, clamam assim como eu,
Menos mazelas.
Os cofres esvaziam, sorrateiramente.
Um dia saberemos, de quem vai ser a culpa?



quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Sobre cordeiros e lobos

Somos lobos em pele de cordeiro
Desfazendo-nos em palavras vãs,
Em noites meia lua, somos inteiros,
Quando cheia, uivamos de dor afã.

Ah! Dói ser cordeiro todo tempo!
Com um lobo insano em sua vida.
É luta de momento em momento!
Sem medalhas a serem oferecidas.

Vez por outra o lobo vence e sacia,
E finge novamente ser dominado.
Cordeiro não vence, aceita, espia.

Um lobo vencido adormece calado.
Solitário, vencedor cordeiro anuncia.

Cordeiro em pele de lobo tornado. 

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Palavras desconexas para uma visita esperada


Já não sei se quero sentir a aridez de teu solo,

A robustez de tua língua, a maciez de teu corpo.

Cansa olhar ao redor, ver que imploro atenção,

Por quê me deixaste sofrer, com minha canção?

Peço que esperes pelo meu chamado na curva!

Minhas vistas estão turvas, não te vejo me ouvir!

Não tenhas pena de minha humilde condição,

Pois, por mais que tu queiras, não estarei feliz.

Antes, te buscava no mar, nas ondas, e espumas.

Se muito eu vivi, esqueças, eu quero mais viver,

Amar de novo, fazer o que fiz, arriscar a perder.

Roendo unhas, rindo, implorando um tapa na cara,

Outras, pedindo um roçar de minha barba malfeita.

Espalme tuas mãos sobre meu o peito arfante!

Também nem sei se preciso de tua companhia,

Talvez eu prefira ter que buscar vidas mais férteis,

Colos suaves, palavras macias, corpos ardentes.

Mandei que plantassem lá, flores, anis e alecrim,

Para que tuas vestes negras tragam perfumes.

Senta-te na cama e acomodes a minha cabeça.

Às vezes te encontrava na areia, na lama, na cama.

Sei que não te podes esperar que eu ainda respire,

Por quê insistes ouvir meu canto, pedindo perdão?

Permita que meu espírito cansado se retire, pois,


Trêmulos lábios não exprimem notas musicais!

sexta-feira, 8 de maio de 2015

A torre

A Torre

Alcides Ramos


No jardim uma formiga carregava uma imensa folha, meus olhos não conseguiam acreditar que uma criatura tão pequena pudesse ter tanta força e equilíbrio.  Com cuidado levantei a  folha e a formiga correu desesperada como se lhe tirassem o seu mundo. Eu agachada não percebia que estava sendo observada, já havia  algum tempo, até que ele chegou e me disse: O que olhas tão concentrada ai neste jardim?  Eu meio sem graça disse que estava observando aquela formiga e que não o tinha visto chegar. E ele: Porque não chamaste o senhor Jacinto? Estas formigas podem acabar com o jardim e as hortaliças, ah menina, Senhor Jacinto, senhor Jacinto? Saiu ele correndo em volta da casa à procura do jardineiro.
Após alguns minutos voltou resmungando que não tinha ninguém em casa e perguntando: Cadê todo mundo? Seu Jacinto, tua mãe?  Eu expliquei que o jardineiro tinha saído para comprar adubo e minha mãe estava ajudando a dona Mariquinhas a alvejar as toalhas para a festa da padroeira, e eu... E tu o que fazes aqui? Estou esperando minha mãe, ela disse que iria demorar, não tem ninguém lá em casa e aqui é mais seguro. Ah! E como se estivesse pensando como me agradar, trovejou: Conheces a nova torre? Está quase acabada, já colocaram o sino, as cordas, agora falta pintar e fazer uma boa limpeza, queres ir lá ver? Quero, falei sem pensar no quanto meu coração descompassava.
Subimos as escadarias como duas crianças, a escuridão descompassava ainda mais meu coração, ele segurava a batina com as duas mãos levantando-a para não tropeçar. Chegamos no alto da torre ofegantes e uma breve luz da tarde entrava pela janelinha onde o sino estava pendurado. Cuidado, senão pisas na corda e tocas o sino. E se tocar? Vão descobrir que estamos aqui. E o que é que tem isso? Não é bom. Porquê? As pessoas podem maldar,... estás cansada, faças isto, levante os dois braços e inspire, abaixe-os e expire, isso, de novo, levante, inspire, abaixe, expire. Está mais calma agora? Estou, mas o senhor está suando, estou sentindo sua testa  encostada em minha nuca, e sua respiração também está bem agitada, agora o senhor já pode me deixar, já estou mais calma.
Desvencilhei dos seus braços que me apertavam e me puxavam de encontro a seu peito, sentia sua excitação debaixo da batina, de encontro às minhas nádegas, me corei e quis correr, ele abaixou a cabeça como que envergonhado, comecei a perguntar sobre os toques do sino e aquele mal-estar foi se apagando levemente.
Quando descemos da torre o senhor Jacinto já estava chegando com o adubo, e os dois foram para os fundos a conversar sobre as formigas. Sentei-me  num tronco cortado e fiquei pensando em tudo que acabara de acontecer. Eu já não era mais uma criança,  meus quadris já realçavam e meus seios já necessitavam serem tapados e enrolados com uma faixa. Senti que molhara a calcinha e não era menstruação, fazia poucos dias que ela tinha secado, minhas regras já eram regulares desde os doze anos.
Corri para o banheiro para ver o que tinha acontecido, não era xixi nem menstruação. Minha combinação também tinha molhado um pouco, fiquei preocupada que minha mãe visse e perguntasse o que era, mas isso não aconteceu. Minha mãe chegou, correu para a cozinha a preparar o jantar do padre Augusto e logo me chamou para ir embora para  nossa casa.
Ao chegar em casa tomei banho depressa e no banheiro lavei minha calcinha e minha combinação, o que foi um espanto para minha mãe, que nunca me vira fazer aquilo. O que aconteceu minha filha? Nada mãe, é que quando eu ia entrar na banheira a combinação e a calcinha caíram e molharam, aí aproveitei e as lavei. Corri a colocar as peças no varal e voltei para o jantar.
O cheiro do tempero invadia a casa e minha mãe cantava uma alegre cantiga de roda. Naquela noite só estávamos nós duas em casa, meu pai e meu irmão estavam garimpando pelos lados da fazenda do Gualaxo, e só voltariam no fim de semana. Jantamos, fizemos nossas orações e fomos dormir.
Não consegui, o sino tocava,  bem em cima da minha cabeça, o padre Augusto subia e descia a puxar a corda para que o sino tocasse, quando a corda o puxava para cima eu via debaixo de sua batina seu sexo ereto e suas nádegas brancas. Virava de um lado para outro, tapava os olhos com o travesseiro, rezava e nada. Corri para o quarto de minha mãe e me deitei com ela, só assim que consegui a esquecer aquela cena. Ela não me disse nada, só que era normal a gente ter medo de dormir sozinha de vez em quando, principalmente quando nem o pai  nem o irmão não estavam em casa.
Fui para o colégio no dia seguinte, e as lições acabaram me  fazendo esquecer tudo. Os dias foram passando e tudo corria normalmente, nada me perturbava. Não vira mais o padre Augusto de perto, só durante a missa e na festa da padroeira. Eu e minhas primas carregamos o andor, geralmente o padre dá uma benção às virgens que carregam o andor mas dessa vez parece que ele tinha esquecido. Minhas tias reclamaram, mas minha mãe disse que isso era natural, o padre não tinha tanto tempo, e desde que ele dava a benção para todos na hora da procissão nós já estávamos abençoadas.
Após alguns meses tudo já estava em seu devido lugar, a festa da padroeira já tinha passado, as aulas já tinham terminado, e minhas férias escolares pareciam começar na mesma rotina, pic-nic com as tias, brincar de roda com as primas, passeio no sítio da vovó.
Assim se passavam as férias quando um dia minha mãe me chamou e disse que era para ir para a casa paroquial, que ela teria que sair com o senhor Jacinto para buscar algumas mudas de hortaliças e era para eu esquentar o almoço para o padre Augusto, assim que ele chegasse. Fui tranqüilamente, levei alguns livros para folhear e me sentei na ante-sala. Padre Augusto chegou e não se surpreendeu com a minha presença, apenas disse que iria tomar um banho enquanto eu esquentasse o almoço.
Quando eu estava no fogão ele me gritou para levar a toalha que já tinha acabado o banho. Corri a procurar onde mamãe guardava as toalhas e encontrei uma branquinha e macia. Ao chegar na porta do banheiro bati de leve e senti que a taramela estava solta, ele estendeu a mão e lhe entreguei a toalha. Com poucos minutos ele chegou na cozinha com aquele cheiro de sabonete e uma túnica bege para almoçar, não disse uma palavra, almoçou e foi logo a se deitar na rede para sua sesta.
Almocei, lavei as vasilhas, limpei a cozinha e fui para o jardim.  A inquietação tomou conta de mim. Um frio misturado com calor subia na minha espinha dorsal, meu corpo parecia tremer, não conseguia ordenar meus pensamentos. Peguei os livros e comecei a folheá-los, as letras embaralhavam, as figuras sumiam, e de repente, estava molhada.
Peguei minha sacola e corri para o banheiro dos empregados para me banhar.  A água morna me dava uma sensação gostosa, me acalmava, joguei minha cabeça para trás e deixei que aquela coisa boa tomasse conta de mim. Pela primeira vez me masturbava conscientemente.  
Ao terminar, senti que alguém andava no corredor, desliguei correndo o chuveiro e comecei a me secar. Com um toque na porta ele perguntou: Tudo bem aí?  Eu disse sim, e perguntei se estava precisando de alguma coisa. Não, apenas percebeu que eu tinha sumido. Troquei-me, destranquei a porta, quando saí, um susto. Que foi padre? Está sentindo alguma coisa? Não, eu estava te esperando. Pra que? Vamos na torre, agora ela já está pronta e limpa. Mas, padre, eu...Vamos, tem que ser agora! Disse isso segurando firmemente meus braços e fixando os meus olhos.
A sacola caiu no chão, soltei-me e comecei a correr. Ele também corria, e ríamos, e corríamos, tomei as escadas da torre e quando já estava lá em cima, muito ofegante, ele chegou. Me tomou nos braços, e disse que meu cheiro era bom, que eu ficava linda com os cabelos molhados, que eu estava quentinha, que minha pele era macia, que meus lábios eram carnudos, que...
Ali nos amamos, a pequena gota de sangue caíra em sua batina bege, nossos corpos brancos buscavam-se com sofreguidão, minha combinação e meu vestido estavam na escada como se escondendo daquela cena, o frenesi de nossos corpos, nossas bocas, nossos olhos a revirar, as nossas lágrimas, a explosão. Minhas pernas esticaram, tocaram na corda e o sino tocou.
Bruscamente ele puxou minhas pernas e disse. Cuidado. Levantou-se colocando apressadamente a batina e desceu correndo as escadas. Chorei, um choro de emoção, de tristeza, de arrependimento, de felicidade. Chorei muito. Peguei minha roupa, vesti, desci as escadas como se estivesse descendo para o inferno. O céu estava ficando para trás, cada degrau descido doía mais meu coração, as lágrimas voltavam agora ainda mais confusas, corri para o banheiro.
Tomei novo banho, essa água morna não me acalmava mais, fechei a torneira quente e deixei a água fria, me encolhia como se quisesse morrer, ali, debaixo de um chuveiro da casa paroquial. Fechei  as torneiras, sequei-me, vesti-me. E agora como sair dali, como encará-lo?  Quando cheguei na cozinha ouvi  barulhos no banheiro social, ele estava tomando banho também. Será que estava chorando como eu?  
Toquei na porta e disse, padre, posso ir embora? Vá, e não volte mais.  Cabisbaixo peguei minha sacola, meus livros, meus pensamentos, meu sofrimento, minha felicidade e saí.
Na desordem emocional, cheguei em casa. Pendurei minha toalha, guardei meus livros, coloquei minha roupa no balaio de roupa suja. Deitei, dormi. Só acordei com minha mãe colocando as mãos na minha testa. Que houve minha filha? Você está quente, vá tomar um banho frio agora, vou preparar um chá para você, foi tudo bem lá na casa paroquial?, Trouxemos tantas mudas de hortaliças, até aqui pra casa eu trouxe, era muda demais, você precisava ver, o mundão de horta que eles têm.
Eu não ouvia nada direito, corri para o banheiro, tomei outro banho enquanto minha mãe preparava o chá, tomei, agora minha mãe calada, não tirava os olhos de cima de mim. Saí, voltei para a cama, chorei.  Minha mãe me olhava com aquela interrogação na testa. Sentou-se e colocou minha cabeça no seu colo e disse: fale, menina, o que tanto te incomoda?
É o padre mãe, ele me fez mal! Bate na boca menina, não repita isso nunca mais. É verdade mãe, não posso esconder isso da senhora, aconteceu. Tomara que mal pior não te aconteça, filha, dorme, amanhã tudo se resolve.
Dormimos, na mesma cama. De madrugada ouvi o sino, estava sonhando? Não, era mesmo aquele sino, e cada vez mais forte. Acordei minha mãe, ela se assustou, não deu muita importância, dormiu de novo. Fiquei pensando até que o sono veio e me roubou os pensamentos.
No dia seguinte, todos procuravam o padre, todos comentavam aquele sino de madrugada, até que alguém desceu correndo da torre e gritando, o padre Augusto morreu, o padre Augusto suicidou.
Na corda do sino estava pendurado um corpo branco e nu, no chão a mesma batina bege com a mesma gota do meu sangue. Sentei-me na beira do jardim a olhar se ainda existiam formigas.

sexta-feira, 6 de março de 2015

Labirinto

Deixaste-me neste labirinto de pensamentos,
Onde as palavras não conseguem expressar,
O verdadeiro estado da alma ou o momento
Que devemos esquecer as etiquetas e gritar.

Por que me obrigas buscar respostas da vida?
Por que não me deixas viver sem um motivo?
Te tornas oculto e deixas que eu transgrida,
Punindo-me ferozmente como pai opressivo.

Ah, mas todos os dias quem me pune sou eu.
Respostas não terei, se a ti não sei perguntar.
Mas sei que há em ti culpa, pois me concebeu.

Se tu te cansas de mim, ainda hei de obstinar,
Por que insisto viver, por quê? Se não valeu,
A luta que até agora travo para me escapar?


segunda-feira, 2 de março de 2015

Teus labirintos

Desde que me deixaste perdido no teu labirinto,
Recolho-me toda noite esperando te encontrar,
Num beco escuro e qualquer, nostálgico e aflito,
Num laço de fita, chorando e rezando num altar.

Esqueceste chaves, pétalas de rosas dormidas,
Que não conseguem atingir aquilo a que veio,
Quebram-se nas mãos sem força e sem vida,
Estúpidas, odor de morte, mordaz devaneio.

Quero te encontrar mas não mais procurar-te,
A solidão que me apavorava tornou-se amiga,
Transformando teu labirinto no meu baluarte.

Destranco tuas portas, grito e entoo cantigas,
Me faço de herói e exibo qualquer estandarte,

Desfaço as amarras, as que a ti me desobrigas. 

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Urinoterapia

        _  Mas meu filho, eu responder um processo por causa de ter cortado mariazinha pra dar pro meu gado?  Vem cá procevê! Foi ali ó! No dia que a polícia chegou eu tinha acabado de cortar a planta, e olha como tá hoje! Com uma semana, a planta volta todinha, eu não arranquei a raiz e nem queimei, era como se eu tivesse podado a planta. Sabe de uma coisa meu filho, a gente tem é de largar tudo mesmo, ir pra cidade e viver as custas do governo. A gente não pode trabalhar e viver na terra da gente?

        _ É seu Agostinho, é muito difícil pra gente também, principalmente explicar para o senhor que o que o senhor fez é crime ambiental.
        _ Ah, mas vamo deixar isso pra lá! Vou lá, o advogado do sindicato faz minha defesa, depois o juiz marca uma audiência, eu pago as multas, cumpro o que ele determinar, e assim vai. Não dá pra entrar na minha cabeça que cortar  uma planta e dar pro gado é crime. E se fosse o gado que entrasse lá no brejo e comesse a mariazinha?  Quem ia responder pelo crime? E olhe que o gado poderia até arrancar a raiz, porque a planta é ardilosa. Ela não arrebenta fácil, tem que cortar. Ah, não vamos falar mais disso não, vamos entrar e tomar um cafezinho.
-       Eu vou agradecer seu Agostinho, já está ficando de noite e tenho que passar ainda lá em Pontal.
-       Pontal? É intimação de crime ambiental também?
-       É!
-       E de quem é?  Se não quiser falar não precisa! De Ezequiel eu aposto que não é! Os Policiais Florestais não saem da fazenda dele! Nunca fiquei sabendo que ele recebesse uma multa, está vendo aquele alto lá? Tudo de Ezequiel, era cheio de mata nativa, cortou tudo no ano passado e sem autorização dos home, deu alguma coisa pra ele? Nada!
-       Vamos deixar pra lá, né seu Agostinho? Tenho mesmo que ir! Boa tarde para o senhor.
-       Boa noite, e vá com Deus.

Entrei em meu carro velho e dei a partida. Nada! Desliguei a chave e liguei novamente, nada! Do outro lado da porteira seu Agostinho me olhava interrogativo. Saí, abri o capô do carro, como se eu entendesse de mecânica e fiquei olhando, já estava bem escuro. Seu Agostinho gritou de lá:
        _ Quer que empurra?
        _ Vou dar mais uma tentada!

De novo dei a partida, como antes nada aconteceu. Arriou a bateria! Sentei dentro do carro e fiz minhas orações, pedindo a Deus que me ajudasse naquela hora, não podia dar tranco no veículo.
Tentei mais uma vez e outra vez, nada! Seu Agostinho aproximou, bateu no meu ombro e disse:
        _ Isso é para não acontecer coisa pior, meu filho. Entra e dorme aí! Amanhã cedo Gerônimo, o rapaz que cuida do gado te ajuda, se for bateria ele usa a bateria da moto dele e vocês dois  conseguem resolver. Vamos entrar, você toma um banho, janta, a gente bate um papo e depois dorme, amanhã tudo se resolve.

Não tinha outro jeito, fiquei sem saber como avisar em casa, não havia no local sinal para telefonia. Entrei, a mulher do seu Agostinho avisou que o jantar estava quase pronto. Seu Agostinho parecia estar contente por me ter em sua casa. Jantamos e fomos para a varanda conversar. Ele me dizia tanta coisa, dava tantos conselhos, simpatias para tudo que há e cura de doenças. 
        _Eu tive um tempo com uns problemas na garganta, o médico até chegou a suspeitar que fosse câncer, fiz um monte de exame e nada era confirmado. O problema continuava e não havia antibiótico que curasse. Aí apareceu nessas redondezas uma senhora que estava procurando ensinar o povo da região o poder de cura das plantas. Ela chegou aqui em casa e mapeou toda minha horta e pomar, disse que aqui na região tem muitas plantas que curam. Algumas eu já sabia, outras pra mim foi novidade, tem tudo anotado ai em casa. E conversando com essa senhora sobre o meu problema na garganta ela me disse que o tratamento tinha que ser através da Urinoterapia. Já viu falar?
        _ Sim, vagamente! (continuava pensando como estaria minha família sem notícias minhas).
        _ É a gente usar o xixi da gente como remédio. A senhora me disse que todo dia de manhã eu teria que usar o primeiro xixi do dia,  tomar tres goles, bochechar e gargarejar tres vezes, por um bom tempo, até curar. No princípio eu fiquei com nojo da situação, mas depois acabei pensando que aquilo poderia ser minha cura. Comecei o tratamento, tem duas semanas, se você visse como tava minha garganta e como ela está hoje, você nem acredita. Todo dia de manhã, eu encho uma caneca com meu xixi e faço o que a dona mandou. Parece que vai curar mesmo.
        _ Tomara, né seu Agostinho?
        _ Vou arranjar uma toalha pra você tomar banho, como você não tem roupa de dormir, você se enxuga la no quarto que já está preparado e dorme sem roupa mesmo. Pode ficar tranquilo, que só tem eu e a patroa na casa.

Esqueci completamente da minha família e fiquei pensando na sabedoria do povo da zona rural, nas curas que eles fazem com chás, simpatias, banhos e rezas. Agora essa, Urinoterapia! Como será isso? É um povo tão simples que acredita em todos que trazem novidades, principalmente quando se trata de curas. Ao mesmo tempo fiquei pensando como o senhor Agostinho fazia de manhã, será que ele pegava qualquer caneca e fazia suas necessidades nela e fazia o tratamento? E se fosse uma daquelas canecas que tomei água ou o café? Na dúvida, perdi a vontade de tomar café na manhã seguinte.

Dormi um sono leve, acordei com o cantar dos pássaros e de um galo que parecia estar debaixo de minha cama. Rumei para a cozinha e a mulher de seu Agostinho disse que ele já estava no curral tirando o leite, há bem tempo. Antes que chegasse no curral seu Agostinho veio ao meu encontro e convidou para tomar o café.

Lembrei-me do caso do xixi e disse que não estava me sentindo bem, e que ia agradecer o café. O Gerônimo logo veio e disse que se o problema do carro fosse a bateria arriada ele resolveria naquela hora, era só fazer uma “chupeta”! Ele e outro rapaz foram juntos e lá resolveram sozinhos o problema, era mesmo a bateria.

Seu agostinho tomou café e comeu muito, eu fiquei olhando aquela mesa bonita, se eu disse que não estava me sentindo bem para tomar café, também não poderia comer daquelas maravilhas sobre a mesa; broa, mandioca cozida, inhame, melado, etc.

Assim que terminou sua refeição, seu Agostinho me acompanhou para minha saída, me levou no curral para ver o novo bezerro que tinha nascido naquela noite, e quando ele passou perto do cocho alguma coisa fez um barulho, era a cabeça do seu Agostinho que tocara em uma caneca pendurada no telhado do curral.
        _ Como eu venho direto para o curral antes do café, é aqui mesmo que faço a minha sessão de Urinoterapia. Por isso que essa caneca fica aqui!
        _ Ah seu Agostinho, pensando bem, acho que vou voltar lá na cozinha e tomar um cafezinho, acho que sair sem nada no estômago não vai ser muito aconselhável não é?
        _ Vai lá meu filho! Eu não insisti muito, por que vocês da cidade são cheios de mistério!


O despejo

         _ Boa tarde senhor Tadeu, como o senhor já sabe vim acabar de cumprir a ordem de despejo.

Por um bom tempo, ele ficou me olhando sem dizer uma palavra. Observei que o boteco continuava da mesma forma que deixei, nada fora do lugar. Nenhum cliente, somente um copo sobre o balcão, dentro dele um líquido que o senhor Tadeu tragou de um só gole. Levantando-se gritou a esposa e ela veio acompanhada de dois meninos.
         _ Ô moço, pelo amor de Deus, para onde nós vamos? O senhor tinha que dar mais prazo pra gente, olhe aqui, o senhor não tem dó de duas crianças? Eu e esse bebum se ajeita em qualquer lugar, mas e as crianças?
         _ Senhora, eu cumpro ordens. O prazo que a senhora está pedindo corre desde o dia que trouxe a primeira citação. Eu sinto muito, mas temos que desocupar o imóvel hoje.
         _ A casa e o Bar? Deixa a gente pelo menos ficar no bar, não tem como tomar banho mas a gente se vira. Pelo amor de Deus moço!
         _ Infelizmente não posso, não tem como eu fazer mais nada.

Do lado de fora estava estacionado o caminhão de mudanças, locado pelo dono do imóvel, para o transporte das coisas dos despejados.  Senhor Tadeu nada disse, só me olhava com um leve sorriso nos lábios. As crianças já estavam juntando seus brinquedos e a mãe começou a arrumar as roupas e colocá-las em trouxas feitas com os lençóis. Grita.
         _ Tadeu, seu bebum! Não vai ajudar não? Precisa desmontar a cama e os armários, já sabe pra onde vamos? Maldita hora que te acompanhei pra cá. Essa bebida acabou com você e com nossa vida.

Senhor Tadeu não arredou do lugar, continuava a me olhar me deixando cada vez mais inquieto. Apareceram dois homens contratados pelo dono do imóvel perguntando o que era para colocar no caminhão.  Sem pensar muito, disse a eles que era para ir colocando as coisas do bar primeiro, mesas, cadeiras, congeladores, etc. Quando começaram a pegar os materiais o senhor Tadeu levantou-se.
         _ Daqui não sai nada! Se colocarem a mão em alguma coisa aqui vai sair morte, e você (apontando para mim) será o primeiro!

Calmamente, saí do local e chamei a polícia para dar o apoio. Antes que a polícia chegasse o senhor Tadeu começou a quebrar tudo que via pela frente, vidraças, garrafas, porta de geladeira, vitrines etc. De longe eu e os dois homens observávamos  tudo. Ele foi ficando calmo e a polícia chegou. Nem um pio. A mulher apenas chorava e organizava as coisas para a mudança, sem saber nem mesmo para onde iam.

Escurecia e as luzes de Natal começaram a acender nas casas em volta, uma leve neblina começou a cair. Apareceram mais dois homens para ajudar e em pouco tempo estava tudo dentro do caminhão. Entramos na casa e nada mais tinha para ser tirado, no bar apenas a quebradeira do senhor Tadeu. O dono do imóvel chegou e o senhor  Tadeu levantou-se.
-        Seu ladrão, foi bom você chegar! Nunca imaginei que você faria isso!
-        Tadeu, vai para sua casa!

Nem mais uma palavra foi dita, entraram no caminhão e o motorista deu a partida. Depois de alguns metros parou bruscamente. Desceu do caminhão um dos meninos que veio correndo em minha direção.
         _ Feliz Natal moço, e muito obrigado!

Aceitei o abraço daquele menino, e quando ele voltou ao caminhão virei meu rosto para o outro lado, para disfarçar uma teimosa lágrima que insistia em sair.


domingo, 22 de fevereiro de 2015

O colecionador

_ A sua bênção Tio Quinzin!
_ Deus te abençoe meu fio! Entra pra dentro! Como é que vai a patroa e as minina?
_Vão muito bem tio, e o senhor? Como tem passado?
_Vou ino como Deus permite! Só essa barriga inchada que me perturba. O doutor disse que só melhora a poder de remédio, eu nunca fui de tomar remédio, cê sabe!
_ E o que o senhor tá fazendo aí, agachado desse jeito, cuidado com a coluna!
_ Tô dano uma jeitada nestas tralha aqui. Sua tia vive me xingano por causa disso, fala que vivo juntano lixo, mas toda vez que ela precisa de alguma coisa, onde que ela procura? Aqui, no meu lixo. Sabe o que ela veio procurá hoje? Aquela pecinha de travá o sutião nas costa, o dela é novim, mas hoje em dia tudo é descartave né? Mexeu, mexeu e remexeu até achar o que queria, depois deixou desse jeito, oipocevê!
_Tio, é coisa demais hein? Vai dar um trabalhão para organizar tudo isso.
_É rapidinho, vai lá dentro vê sua tia e tomá um café, enquanto isso acabo com isso aqui, depois a gente bate um dedim de prosa.
         Deixei que ele continuasse seu trabalho e entrei para a cozinha. Um cheiro quente e gostoso saía do fogão a lenha, a fumaça branca azulada contrastava com o queimado da parede, o sol que entrava pela janela fazia um clarão ao lado do armário, onde um gato preguiçosamente dormia. Minha tia, com as mãos molhadas, veio me receber com um abraço, sem colocar as mãos em minhas roupas, aquele abraço forte com cheiro de defumados e de café. O cuscus com queijo já estava quase pronto e ela mandou-me sentar.
_ Espera só um pouquinho que vou desenformar o cuscus. Deve ter muito tempo que você não come, não é? Como vai as meninas?
_Verdade, tia. A última vez que comi cuscus foi no velório do meu avô. Muito tempo né? As meninas vão bem.
_É, já teve até missa de um ano!
         Degustei aquele cuscus com queijo acompanhado de café com leite. De vez em quando fechava os olhos para lembrar de minha infância naquelas redondezas. Cheiros, sabores, traquinagens, safadezas, saudade, muita saudade. Meu tio entrou partindo minhas lembranças com seu pigarro. Tomou um pouco de café sem leite e disse que não ia comer cuscus por causa da barriga inchada. Voltamos à varanda onde ele estava.
_ Num falei? Num piscar de oio botei tudo nos conforme!
_ Mas para que o senhor guarda tanta coisa tio? Hoje a gente encontra de tudo nas lojas.
_ Eu sei, eu sei! Ma num é todo dia que a gente tem dinheiro e num é todo dia que dá pra ir na cidade. Aqui, na venda de João de Bernarda, num acha nada que preste. Só mesmo kissuki, açuca, sabão, banha e querozem; o resto a gente tem que buscá na cidade. Eu qui não sô igual a muitos por aí, que até cove busca na cidade. Pra quê? Com tanta terra desperdiçada por aí e a gente não plantá nem pra cumê?. Vai lá fora e oipocevê! Tem arroz, feijão, mio, mandioca, batata, cebola, alface, cove, inhame, mamão, abroba, e até banha a gente não compra, sempre tem um ronca e fuça engordano lá no chiquero. Voltano às tralha você pode oiá aí, tem quase tudo, de A a Z. Qué vê?
         Fiquei um pouco pensativo com aquelas palavras do meu velho tio, imaginando o porquê  de muitos moradores da zona rural não plantarem pelo menos os alimentos que serão consumidos na casa. Fui até o parapeito da varanda e dei uma olhada panorâmica nos arredores, dava gosto ver, tudo verde, em cada canto um tipo de plantação. Meu tio interrompeu meus pensamentos perguntando novamente se eu não queria ver seus guardados. Voltei-me a ele, e reparei no malão, que virara um arquivo com vinte e seis gavetas, cada qual com uma letra do alfabeto.
_Tá tudo aqui ó. Cada gaveta tem coisa iniciada com a letra da tampa. Oipocevê!
         Comecei a abrir as gavetas e me alegrar com tanta inteligência do velho, fui me interessando mais e mais e quis saber o que tinha cada gaveta. E ele todo bonachão começou a falar.
_ Na letra A tem arruela, arame, finete; na letra B tem binóculo, bisturi, bexiga, (bisturi? Eu pensei, para quê?); na letra C tem canivete, caneta, cravo; na letra D tem dinamite, dado, dedeira, (meu Deus, dinamite?); na letra E tem elástico, espelhinho, espora; na letra F tem...
         Fiquei pensando o que teria nas letra K, W, X e Y, deixando ele ir descrevendo tudo que tinha.
_Na letra H tem hydra.
_Hydra? O que é isso tio?
         Sem pestanejar ele mostrou uma válvula de descarga de vaso sanitário, de marca Hydra, e foi continuando.
_Na letra P tem palito, prego, parafuso, palmilha de tênis, de sapato e de bota.
_Palmilha tio? Pra quê? Quem vai precisar de uma palmilha?
_Hum! Na letra T tem...
         Pensei, tá chegando no W, X, Y e Z, quero ver!
_Espera aí tio, duvido que tenha alguma coisa na letra W, posso olhar?
_Claro, oipocevê!
         Abri cuidadosamente a gaveta da letra W e não é que encontrei uma coisa? Lá dentro estava uma embalagem de vidro, com um lindo rótulo de couro, escrito Whisky. Claro que não vou e nem quero falar a marca, respirei fundo e abracei meu tio.
_Puxa tio, o senhor me surpreende! Preciso vir mais vezes aqui!
_ Venha quando quiser, minino. Da outra veiz traz a dona patroa e as minina.
         Quando estávamos desfazendo o abraço chegou minha prima Constança, com um pé calçado e outro descalço, com o tênis na mão e perguntando:
_ Pai, por acaso o senhor não tem aí uma palmilha? O Rex pegou a palmilha de meu tênis no varal e comeu a metade dela!
         Meu tio todo convencido foi procurar na gaveta da letra P, pegou várias palmilhas e deu a Constança para que a mesma escolhesse a que lhe servisse. Enquanto ela escolhia a melhor palmilha ele me olhava de banda, como ele mesmo sempre diz.

_ De que mesmo a gente tava falano?

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Carnaval

Perambulei te procurando por aí,
Tentei te encontrar por onde fui,
Pensei que teus sorrisos eu ouvi,
Mas isso as marchinhas obstrui.

Voltei e minha fantasia  entrajei,
Nos bares muitos goles eu bebi,
Estar nos teus braços eu sonhei,
Estavas n’outros braços, eu te vi.

Mas antes deste carnaval findar,
Em braços diferentes eu estarei,
Assim de novo vou te encontrar.

Na quarta quando tudo acabar,
Sorrindo a tua volta esperarei,
E juntos novamente começar.


Alcides Ramos 15/02/2015

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Não tente decifrar-me

Nunca um poeta tentes tu decifrar,
Nem mesmo interpretar o que ele diz,
De sua vida nada há em seus versos,
Um pouquinho de várias vidas, talvez.

Não precisa amar, para falar de amor,
Nem sofrer, para expressar sofrimento.
Existe uma musa? Sim, talvez muitas,
A amada, desejada, despida ou morta.

Se ontem desnudava-se a cortejando,
Hoje se ri em rimas numa despedida,
Só, amanhã, mendigando afeto estará,
Depois, morto de amor se encontrará.

Ele finge, como já dizia o poeta Pessoa,
Ama e sofre, até mesmo sem ninguém,
Diz ser dor uma dor que nunca sente,
Simula um amor, nem se sabe a quem.

Deixe que o poeta expresse em versos,
O que lhe vem na teia, não te importes,
Apenas sinta, se queres ou deves sentir,
Os versos de um ser obrigado a fingir.





segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

sobre nós

Anda esfriando minha febre por teu corpo,
Talvez seja os momentos que me deixas só,
Porque me esqueces a ver navios no porto,
E me assombras com tua frieza de dar dó.

Não quero que seja somente tua, a culpa,
Afinal fico só, não luto pela tua presença,
Esqueço-me, solidão que vem me insulta.
Busco-te, ambos necessitamos clemência.

Não posso visualizar agora uma boa saída,
Pois as portas que se abrem me dão medo,
E as amarras, se fortalecem com a dúvida.

Ainda te espero, não há entre nós segredo,
Ainda há afeição, se mesmo assim corroída,
Não a deixemos morrer, a ti isso intercedo.









quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Reencontro




Depois de tanto tempo, rever-te me assusta,
Como pudemos viver momentos tão felizes,
Perceber a distância, e vencer a ela não custa,
Amargar em saudades de diferentes matizes.

Mudamos quase nada e tua beleza continua.
Algum pecado em nossos olhos ainda queima,
Desnuda-me o corpo e eu decifro a alma tua,
Sóbrios em terras onde o desconforto reina.

E assim, conduzindo o nosso embaraço,
Arrefecemos o calor desejo de nossa pele,
Triste, murcha, de um encontro fracasso.

Tu te encontras em outras notas musicais,
Me encontro em solos de velhas partituras,
Distância, saudade, amor, dor e amargura.





domingo, 1 de fevereiro de 2015

a volta

Venho reconsiderando a ideia de voltar  a ser teu,
Afinal por mais que eu corra, sempre estou em ti.
Aliciaste-me e me cercaste de todas as maneiras,
Que não encontro uma vida melhor da que vivi.

Ao sair de tua vida tive a ideia fixa de ser livre,
Voltar a aventurar, ao som do tempo e do vento.
Mas eu corro, em direções outras, quase morro,
Algures estás tu, colo, carinho, amor, acalento.

Voltarei calado como sabes, é de meu costume,
Deitarei no teu colo e deixarei que me toques,
Adormecerei enfim, inebriado com teu perfume.

Ao despertar-me, amar-te-ei  de forma alterada,
Pois nossos corpos acostumados se estranharão,
Com o tirocínio de minha existência desventurada.






quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Desaceitação

Desde o malfadado dia que saí de tua vida,
Que minha inspiração não consigo encontrar.
Fumo, bebo, ando pelas montanhas e nada.
Sou poço vazio, jardim sem flor, céu sem ar.

Mais um soneto garboso queria te oferecer.
Mesmo que te encontres enamorada agora,
E continues como sempre, a me repudiar.
Bem sabes quantos te dediquei outrora.

Não te perdi pois na verdade nunca te tive.
Nem adeus te dei pois comigo não estiveras.
Continuaste sempre ausente sempre austera.

A minha alma de poeta que te elegera musa,
Com a tua desaceitação, nunca se importou,
Desfez-se em versos, sofreu, chorou e amou.








quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Um adeus

Anuncio que sairei de tua vida.
Teus caminhos abertos deixarei,
Bem iluminados, olorados e livres
Dos espinhos que neles encontrei.

Que eu volte a usá-los, não esperes.
Caminhos outros esperam por mim.
Desbravador como sempre apresento,
Das aventuras, faço das trilhas um fim.

Não deixes que qualquer um te ame,
Nem que sujes os caminhos teus/meus.
Também não previnas de outro adeus.

Apascenta teu coração das mágoas,
Para que eu saia sem sentir uma dor
E tu fiques livre para um outro amor.


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Cyd Ramos, textos, músicas e poesias