Cyd Ramos

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Morrendo

Morro todos os dias 
nos atentados contra crianças 
no mundo , no Brasil, em Minas
Ressussito entre escombros 
tento respirar paz 
mas o sangue espalhado
tira a vontade de sobreviver
Olho em minha volta
só vejo pessoas apressadas
tentando ser aquilo
que escolheram no início do ano
As velas e purpurinas
permanecem brilhando
como um farol que cega
atraindo os piores navegantes
Escondo meu corpo nu
nos farrapos deixados pelo tufão
esboço um sorriso
atiradeiras direcionam para mim
Toco uma melodia de amor
riem de minha insignificância
viro as costas para o mundo
e continuo morrendo

A corda

Queria me preocupar menos
com as mazelas deste país 
me sentir isento de mudanças
tornar-me um alienado mudo
mudo todos os dias de opinião 
se hoje sou de esquerda
ontem não sei o que fui
falei de quê?
do que eu ri, ou chorei?
fui racista sem saber
preconceituoso sabendo
ridicularizado ridicularizando
melhor seria ser imparcial 

dançando conforme a música
em cima do muro
olhar lá de cima
humanos serem manipulados
bonecos de corda
vivendo na corda bamba
acorda!
a corda aperta a cada dia
pescoços estrangulados
língua roxa
marcas roxas pelo corpo
solavancados pelo som
das panelas levantadas
num dia de domingo
acorda!
Queria ser bem menos
e não sofrer mais com isso!

Como Jonas

Antes que a profecia 
verdadeiramente concretizasse 
antecipei minha saída 
agora revolto com essa hera 
que florescera dando sombras
amanhecera seca de sol
a ira que de mim toma conta
me obriga a pedir a morte
como Jonas fugido de Nínive
cidade de pecadores
que Deus ousou perdoar
resmungo pequenas coisas
discordo as vontades do Pai
quero viver sem problemas
no meu castelo de sombras
água fresca e muito mel
esperando o tempo passar
alienado do que se passa lá

Vestida de sol

Como uma cobra
vomitei água suja para submergir-te 
e agarrei teu filho para subjugá-lo
Como mãe protetora
pisaste-me a cabeça
que se encontrava debaixo da lua
e expulsaste-me para a terra
Vestido de ouro
o rei me aponta o cetro
perguntando o que ainda quero
concede-me a vida
a vida de meu povo
encha as talhas de amor

Contamos

Aqueço-te nos meus braços
uma luz acorda no horizonte
fugimos em arroubos de amor
vestidos de ouro e pétalas
de estrelas encontradas no mar
Enquanto contas gotas de orvalho
conto as horas que faltam
para nosso ritual de encontro
onde permanecemos livres
na prisão de nossas bocas
Contas meus braços
conto tua luz
contas estrelas
conto encontros
contamos nós

Canto novo

Chamaste-me pelo nome
Tomaste-me pelas mãos 
Armaste-me guerreiro
Não Te reconheci?
Dei a César o que era dele 
Enterrei meus talentos
E a Ti fiquei devendo
E agora o que faço?
Cantar-Te-ei um canto novo

Eu pecador

Na busca da terra prometida
amei muito a mim mesmo
deixei de amar meu irmão 
esqueci de amar a Ti
apesar dos mandamentos.
Emprestei com usura
maltratei a viúva, ferí o órfão
o manto pego como penhor
ficou guardado
matando de frio meu devedor.
Tua espada ainda na bainha
mata-me de medo
pois ouviste
o clamor da viúva
o choro do órfão
o grito do devedor.

Fim

Como cordeiro triste e faminto
Desgarrado de seu rebanho 
Choro e tropeço nas pedras 
Quando Te busco no alto 
Sei que estás nas alturas 
Ouvindo nossos louvores
Sei também que Tua promessa
Jamais será esquecida
Canto meus mortos e vivos
Trafego nas vias de mão dupla
Confiando nos sinais de outrora
Deixados pelos antepassados
Minha alma peregrina se alegra
Acreditando mesmo que estará
Junto a Ti os meus preferidos
Ressuscitados comigo no dia final

Apocalipse

Com minha palma na mão
empunhada como espada
me encontro entre anjos
trajando túnicas brancas
Somos de uma tribulação
de onde foram marcadas
nossas frontes como sinal
dos que podem adorar Deus
Bem-aventurado sou eu
que mesmo não sendo digno
sou chamado filho de Deus
Hosana e Glória para sempre

Inspirado em (Lc 14, 15-24)

Preparaste grande banquete
convidaste-me a fazer parte
sentar-me à mesa junto a Ti
eu, muitas desculpas te dei
Tenho minhas obrigações
não quero me comprometer
não me sinto à vontade
não sei usar meus talentos
Ficaste decepcionado comigo
no meu lugar colocaste outro
aquele que na vida nunca vi
invisível perante à sociedade
Agora, arrependido observo
lugares possíveis ocupados
minha indiferença me mata
existe lugar no Teu coração?

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