Cyd Ramos

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Perguntas




Fiz perguntas pra minha solidão
Respostas tolas me ensinaram sofrer
Corri estradas buscando a solução
Parece até que sou culpado em viver

Se passo na rua, se corro apressado
Se uso meu ser e não tomo cuidado

Eu quero é mais, vida pra mim
Me deixe em paz, me deixe assim
Te quero aqui do meu lado,
Mas do jeito que sonho,
Se isso não for possível
Nada mais te proponho


terça-feira, 25 de julho de 2017

Bandeira perdida


- Perdi minha bandeira!
- Mas como? Você estava com ela agorinha mesmo!
- Não sei, roubaram ela!
Acabávamos de presenciar os policiais militares destruindo as portas de vidro da Câmara, para não sermos vistos por eles, saímos em debandada para a praça onde estavam os outros manifestantes.  Minha bandeira com o símbolo do meu partido, ficou no caminho. Com a pressa de chegarmos na praça nem senti que ela se perdera.  Lembro-me vagamente que dei de encontro com um policial que corria em direção contrária e ele me apertou o braço esquerdo de forma estranha.
Os outros manifestantes ateavam fogo nos sanitários móveis que ali se encontravam à espera de um grande movimento naquele primeiro de maio. Nas janelas da Câmara os servidores acenavam com lenços brancos como se pedissem socorro. Sirenes de carros de bombeiros e viaturas policiais se misturavam com os gritos dos manifestantes que aumentavam a cada segundo.
Do meu lado direito uma menina de mais ou menos treze anos segurava uma rosa vermelha nas mãos e dançava como se estivesse no Teatro Municipal. O barulho ensurdecedor para muitos a incitava a dançar. A praça foi-se acalmando e por um instante todos miravam aquela criatura que bailava na ponta dos pés segurando uma rosa. Uma chuva fina começou a cair e os raios do sol formaram um arco-íris sobre a praça. Era um sinal que uma força superior estava por ali.
Bombas de gás lacrimogêneo estouraram no meio dos manifestantes e todos correram para lados diversos, ficando no centro da praça somente a menina na ponta dos pés.  Policiais com metralhadoras começaram a atirar para cima e um misto de dor e desespero tomou conta de todos os presentes naquela praça.  Uma rosa vermelha despedaçava e seu sangue escorria como uma nascente de um rio triste.
Mulheres tiravam seus casacos e tentavam em vão estancar o sangue, pois  os furos eram muitos, o sangue era muito, a tristeza era muita, a revolta enorme.  Homens marchavam em direção aos policiais que tentavam se proteger com os escudos apontando suas armas.  Tambores rufavam ferozmente, bandeiras  agitavam nos ares, mais sangue escorria no meio do povo.
Do décimo andar da Câmara uma mulher se atirou pelos ares espatifando perto dos manifestantes.  Um homem utilizando de um auto-falante começou a pedir calma a todos, mas o caos já se formara.  Como não sabíamos o que fazer, começamos a cantar uma canção de paz, aos poucos outros se juntaram ao nosso canto e como num passe de mágica a praça tornou-se numa festa, onde sangue, suor e conflito se misturavam num frenesi inexplicável.
Aos poucos, homens, mulheres e crianças se abraçaram num choro que podia ser traduzido por satisfação e revolta.  O sangue nas nossas vestes, nos nossos corpos e na nossa boca era visível e o odor era considerável. Não havia policiais, não havia pessoas na Câmara, não havia barulho.  Somente os  manifestantes que se abraçavam naquela praça molhada, bandeiras caídas, tambores espatifados, silêncio.
Voltamos pra casa com aquele amargo na língua, sem fome, sem sede, sem sentimento de ódio ou de amor, sem a certeza de ser vencedores ou vencidos. Um banho quente, uma xícara de chá, um cobertor e um sofá para ver os noticiários daquele dia indecifrável.
“Um bando de baderneiros, destruíram as portas de vidro da Câmara nas manifestações de hoje.  Liderados por um homem de meia idade, atacaram as pessoas na praça, levando a óbito uma criança de treze anos que dançava com uma rosa vermelha nas mãos.  Uma mulher ao ver a criança sendo assassinada pulou das janelas da Câmara, causando uma comoção geral em todos os manifestantes, que se abraçaram e choraram por um bom tempo na praça Primeiro de Maio.  O líder dos baderneiros foi visto pelas câmeras  na hora que fugia após a quebra das portas de vidro. A bandeira que estava com ele tem o seu nome gravado.  Os policiais esperam que ele se entregue ainda esta noite”.






Área do Tuiuiú

Por que será que os barraqueiros gritam tanto? Acordo cedo, pego minhas coisas para ir para a praia e antes que eu chegue no calçadão, um barraqueiro me interpela implorando para eu ir para a sua barraca.
-Aí patrão, não cobramos barraca nem cadeiras, desde que consuma  um petisco.  Mas caso não consuma, fazemos um preço bacana para o senhor.
Explico pra ele que não pretendo consumir nada, nem quero me sentar numa barraca onde provavelmente ficarei encurralado pelas outras barracas e o monte de banhistas que ali estarão, explico ainda que preciso ficar num local mais isolado, onde eu possa pensar, meditar, quem sabe dormir. Sem querer acabo confidenciando ao meu novo amigo que não tenho conseguido dormir ultimamente, é tanto calor, é tanta dor nas costas, na coluna e nas pernas.
- Ah, então o patrão está precisando é de um passeio de barco pela orla, visitar uns recantos tranqüilos onde o senhor possa descansar, o barqueiro deixará o senhor bem à vontade e só sairá de lá quando o senhor quiser sair. Fica um precinho legal. E também se o patrão quiser companhia posso lhe arranjar o que o senhor quiser, meninas ou meninos, e também posso lhe arranjar algum chazinho levanta defunto.
Mais uma vez explico pra ele que não quero nada disso, que quero é paz, ficar na minha solidão sem ser incomodado por nada.  Mas percebo que a vontade dele de me agradar ou mesmo  defender o seu ganha-pão é tão intensa que acabo cedendo.
- Senhor, então me consiga uma barraca mais afastada dos banhistas, uma cadeira e apenas água mineral. Não quero petisco nem mais nada. Lhe pago o aluguel da barraca e da cadeira mas por favor, quero ficar só e em paz.
-Claro patrão, o senhor vai ter o que quer. Pode ficar tranqüilo, que nessa área é o traficante Tuiuiú quem controla. Quando alguém chega aqui e pede tranqüilidade, ninguém incomoda ele. 
Chegando ao local onde meu amigo possui as barracas, percebo que tudo está bem organizado. A quantidade de barracas dispostas ordenadamente colorem a praia, e entre elas a imensidão de banhistas com suas roupas coloridas e corpos seminus. Aos poucos relaxo a minha guarda e começo a ter vontade de estar entre eles, talvez seja isso que esteja me faltando, me misturar com o povo, deixar que me interpelem e permitir que minha vida seja mais leve, mas me lembro do que o barraqueiro disse, área controlada por um traficante de nome Tuiuiú?  O medo toma conta do meu pensamento, não consigo relaxar, fico tentando entender o porquê das coisas serem assim, o porquê da inversão de valores, o porquê de não estarmos protegidos pelas organizações de direito.
Começo a pensar nos problemas que assolam o nosso país e o mundo, e, mais uma vez sei que não conseguirei relaxar, sei que não conseguirei encontrar uma saída, sei que devo voltar pra casa e me trancar.
- E aí patrão, está bom aí?

Pego minhas coisas, pago a água mineral e o aluguel da barraca e da cadeira e saio sem responder ao meu amigo. Não sei se irei à praia tão cedo.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Reencontro

Depois de tanto tempo, rever-te me assusta
Como pudemos viver momentos tão felizes
Perceber a distância, e vencer a ela não custa
Amargar em saudades de diferentes matizes

Mudamos quase nada e tua beleza continua
Algum pecado em nossos olhos ainda queima
Desnuda-me o corpo e eu decifro a alma tua
Sóbrios em terras onde o desconforto reina

E assim conduzindo o nosso embaraço
Arrefecemos o calor desejo de nossa pele
Triste, murcha, de um encontro fracasso

Tu te encontras em outras notas musicais
Me encontro em solos de velhas partituras
Distância, saudade, amor, dor e amargura

domingo, 23 de julho de 2017

Eu te amo burguesinha


Eu vou até você musa linda, amor
Te estendo um tapete, ofereço a flor
Beijo a fita amarrada em teu cabelo
Beijo a tua mão, teu pé, te beijo
Me enrosco no teu corpo, meu desejo
Me acabo no treino, no jogo, no segundo tempo
Me jogo, adormeço, preparo pro recomeço
Te pego de jeito, respeito
Repito palavras buscadas no dicionário
Pra ganhar teu apreço, pra ver se eu mereço
Estar do teu lado, mesmo calado eu esqueço
Acho que vou em outro endereço
Nunca cobrou minha mudança princesa
Mas vejo que você sofre com as loucuras da minha cabeça
Diferentes mundos, me ama, me quer
Uma pena que sou vagabundo

                        Eu te amo burguesinha
Respeito tua vida
Respeite a minha


Me faz um carinho, não me deixa sozinho
Me beija com vontade, me mostra a sua arte
Não queira ficar presa numa novela de amor
Se sou seu vagabundo, não me deixe por favor
Te quero, não quero, na dúvida fique calma
Me perco no compasso mas em você eu me acho
Se calo, não falo, me viro calado, ao avesso
Te amo, te odeio, mas mesmo assim não te deixo.

                        Eu te amo burguesinha
Respeito tua vida
Respeite a minha




A lua, a louca e o lobo

Sob o luar de maio nossos olhos se encontram.
Sobre a lua  minguante, comentam nossas bocas.
Sobram palavras, faltam carícias, mais malícia.
Sobe!  A escada termina defronte a porta da louca.

Tuas sobrancelhas delineadas insistem na dúvida,
Duvidas que minha corda toque os raios lunares?
Num laço desato o nó da discórdia e pago o pato,
Pulo  corda, brigo, grito, gozo, apesar dos pesares.

Sem se importar com nossa loucura a lua uiva.
O lobo alumia a presa com o seu olhar faminto,
Afina as garras numa lápide de mármore azul,
Abraça, beija, aperta e escarra sabor absinto.

Não entreis na casa da louca, nem tireis a corda.
Espia o lobo escrevendo na lápide o teu epitáfio,
Palavras que dançam ferindo o ventre raspado.
Não vês a lua? Jogue a corda e pule! Te desafio!

Eu la em cima

Uma escada aqui? Ca-ra-lho!!!
Vai até onde essa porra?
Subo e vejo mísseis sorrindo
E se atirando no mar.

Balouça mais, vagabundo!
Gosto de altura de montanha russa.
Nem que a vaca tussa vou descer.
Daqui de cima eu gosto do mundo.

Não há morte nem violência,
Estrelas não fazem fila,
Pra ver quem brilha mais.
Lua de mel só desfila!

Um tio toca sanfona,
A prima gostosa me chama,
Me beija, me joga na cama.
Morri, gozei? Não, acordei!!!

segunda-feira, 3 de julho de 2017

beija flor

O que fiz para você
Não é samba não é bossa
Não é pop nem é rock
É declaração de amor

Andei procurando saber o que você curte
Descobri, você é um beija-flor
Bem te vi pulando e beijando todo mundo
Num jardim de arvoredos multicor
Escrevi umas linhas contando meu calor
Se der canto eu te conto sim senhor

Cantei o teu canto no palco da praça
Revivi uns momentos beija flor
Espalhei teu sorriso certeiro de conquista
Quem sorriu aceitou o teu calor
Descobri que amar não tem uma receita
O teu canto deu um canto de amor


Chapéu de flores


CHAPÉU DE FLORES

Letra e Música de Alcides Ramos


Fui passear no açude
Meu bem que me chamou
Pra caçar passarinho
Pegar raminho de flor
Que passarinho que nada
Fomos pra namorar
Mas uns raminhos de flor
Tivemos que  apanhar
Ornei o seu chapéu
Com uns raminhos de flor
Ele me deu o céu
E se encheu de amor

Refrão:            Passarinho traz raminhos
Para os meus amores
Passarinho não faz ninho

No chapéu de flores

Translate

Cyd Ramos, textos, músicas e poesias