Cyd Ramos

sábado, 24 de outubro de 2020

Paixão e vida








Vai meu filho, vai buscar um ramo
De coqueiro, alecrim ou manjericão
Vê se sua irmã já está vestida
Como um anjo para a procissão
O sino redobra , chamando o cristão
Colchas nas sacadas, tapetes no chão
Tem flores de todas cores, pastores,amores
Vida na multidão
No próximo passo o rei vira réu
É preso e julgado e é condenado
Não há mais espaço para a oração
E no coração um espinho é cravado
Ê minha mãe, não chore, diz amém
O que está escrito, pode mudar não
Meu pai está comigo, contigo também
Levo minha cruz, vida do meu irmão
Eu te lavo os pés eu te dou perdão
Eu reparto pão, torno a água em vinho
Sigo o meu caminho, minha paixão
E não vou sozinho nessa procissão

Primavera

 




Setembro sorrindo se foi
Com ele meu sonho de flor
Árvores balançam botões
Águas escorrem pro mar
Deixam montanhas pálidas
De palhas secas pastagens
Magros animais comem pó
Sandálias de homens santos
De onde não são bem vindos
Nenhum milagre acontece
Mas tece pecados diurnos
Que batucam conversão
E o ciclo ainda não fecha
Com flechas soltas no ar

Queimada

 





Lua de sangue foge
Tem fogo na mata
O pico virou fumaça
Foge tiú, maritaca
Andorinha, bem-te-vi
Tatú, ema, Pererê
Tico-tico, beija-flor
Mais nada no mato
Agora só sofrimento
Cinza, osso e carvão
Corre macaco, lobo
Corre cutia, noite e dia
Homem é bicho bobo
Não merece esse chão
Vem lua, lumia breve
Agora é hora de morte
Expia-nos a nossa sorte
Que a terra nos seja leve

Sem essa

 S E M E S S A !




Meu corpo grita
Você não ouve
Fingindo não me entender
Solto minhas amarras
Mostro minha intenção
E lhe faço um carinho
Você me diz que não
Você me conhece
Meu bem
Não me venha com essa
De dor de cabeça
De estar com pressa
Se você não me quer
Meu bem
Eu lhe deixo livre
Posso até sofrer
Sentir muita dor
Mas meu coração
Que é tão vagabundo
Não demora muito
Vai ter outro amor

A margem de cá

 A margem de cá




Me encontro à margem de mim mesmo
Expectador de um tempo interativo
Minhas experiências são fracas marionetes
Tentam em vão ensaiar o último espetáculo
Meu corpo pesado dói muito
Uma poltrona me obriga a ver sem interesse
Cordas esticadas nas mãos do manipulador
Desnudo-me do que me vestiu até aqui
Agradeço e atravesso o rio Vou descobrir o que tem na outra margem
Um barco vazio
Cartas e respostas
Um mágico sim
Um não e um irritante talvez
A dúvida me divide o tempo todo
Ai!
O barco me atrai
Preciso decidir se entro
Se jogo as cartas
Ou ignoro as possíveis respostas
Não posso ficar à margem
Embarco!

O amor que eu tinha por você




O amor que eu tinha por você

Você saiu de minha vida
levando o resto de energia
me atirando contra o muro da dor
Fechou as portas da alegria
trancou desejos negou beijos
ignorou e fez gracejos
do amor
você me abandonou
pensando só em si
Agora vejo o que fui
nessa nossa relação
um completo idiota
me entregava inocente
abrindo o coração
você fechou a porta
não me viu plantar
nem quis deixar crescer
o amor que eu tinha por você
Eu preciso aprender
a ser como você
deixar tudo para trás
e tentar esquecer


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