_ Mas meu filho, eu responder um processo por
causa de ter cortado mariazinha pra dar pro meu gado? Vem cá procevê! Foi ali ó! No dia que a
polícia chegou eu tinha acabado de cortar a planta, e olha como tá hoje! Com
uma semana, a planta volta todinha, eu não arranquei a raiz e nem queimei, era
como se eu tivesse podado a planta. Sabe de uma coisa meu filho, a gente tem é
de largar tudo mesmo, ir pra cidade e viver as custas do governo. A gente não
pode trabalhar e viver na terra da gente?
_
É seu Agostinho, é muito difícil pra gente também, principalmente explicar para
o senhor que o que o senhor fez é crime ambiental.
_
Ah, mas vamo deixar isso pra lá! Vou lá, o advogado do sindicato faz minha
defesa, depois o juiz marca uma audiência, eu pago as multas, cumpro o que ele
determinar, e assim vai. Não dá pra entrar na minha cabeça que cortar uma planta e dar pro gado é crime. E se fosse
o gado que entrasse lá no brejo e comesse a mariazinha? Quem ia responder pelo crime? E olhe que o
gado poderia até arrancar a raiz, porque a planta é ardilosa. Ela não arrebenta
fácil, tem que cortar. Ah, não vamos falar mais disso não, vamos entrar e tomar
um cafezinho.
- Eu vou agradecer seu
Agostinho, já está ficando de noite e tenho que passar ainda lá em Pontal.
- Pontal? É intimação
de crime ambiental também?
- É!
- E de quem é? Se não quiser falar não precisa! De Ezequiel
eu aposto que não é! Os Policiais Florestais não saem da fazenda dele! Nunca
fiquei sabendo que ele recebesse uma multa, está vendo aquele alto lá? Tudo de
Ezequiel, era cheio de mata nativa, cortou tudo no ano passado e sem
autorização dos home, deu alguma coisa pra ele? Nada!
- Vamos deixar pra lá,
né seu Agostinho? Tenho mesmo que ir! Boa tarde para o senhor.
- Boa noite, e vá com
Deus.
Entrei em meu carro velho e dei a partida.
Nada! Desliguei a chave e liguei novamente, nada! Do outro lado da porteira seu
Agostinho me olhava interrogativo. Saí, abri o capô do carro, como se eu
entendesse de mecânica e fiquei olhando, já estava bem escuro. Seu Agostinho gritou
de lá:
_
Quer que empurra?
_
Vou dar mais uma tentada!
De novo dei a partida, como antes nada
aconteceu. Arriou a bateria! Sentei dentro do carro e fiz minhas orações,
pedindo a Deus que me ajudasse naquela hora, não podia dar tranco no veículo.
Tentei mais uma vez e outra vez, nada! Seu
Agostinho aproximou, bateu no meu ombro e disse:
_
Isso é para não acontecer coisa pior, meu filho. Entra e dorme aí! Amanhã cedo
Gerônimo, o rapaz que cuida do gado te ajuda, se for bateria ele usa a bateria
da moto dele e vocês dois conseguem
resolver. Vamos entrar, você toma um banho, janta, a gente bate um papo e
depois dorme, amanhã tudo se resolve.
Não tinha outro jeito, fiquei sem saber como
avisar em casa, não havia no local sinal para telefonia. Entrei, a mulher do
seu Agostinho avisou que o jantar estava quase pronto. Seu Agostinho parecia
estar contente por me ter em sua casa. Jantamos e fomos para a varanda
conversar. Ele me dizia tanta coisa, dava tantos conselhos, simpatias para tudo
que há e cura de doenças.
_Eu
tive um tempo com uns problemas na garganta, o médico até chegou a suspeitar
que fosse câncer, fiz um monte de exame e nada era confirmado. O problema
continuava e não havia antibiótico que curasse. Aí apareceu nessas redondezas
uma senhora que estava procurando ensinar o povo da região o poder de cura das
plantas. Ela chegou aqui em casa e mapeou toda minha horta e pomar, disse que
aqui na região tem muitas plantas que curam. Algumas eu já sabia, outras pra
mim foi novidade, tem tudo anotado ai em casa. E conversando com essa senhora
sobre o meu problema na garganta ela me disse que o tratamento tinha que ser
através da Urinoterapia. Já viu falar?
_
Sim, vagamente! (continuava pensando como estaria minha família sem notícias
minhas).
_
É a gente usar o xixi da gente como remédio. A senhora me disse que todo dia de
manhã eu teria que usar o primeiro xixi do dia,
tomar tres goles, bochechar e gargarejar tres vezes, por um bom tempo,
até curar. No princípio eu fiquei com nojo da situação, mas depois acabei
pensando que aquilo poderia ser minha cura. Comecei o tratamento, tem duas
semanas, se você visse como tava minha garganta e como ela está hoje, você nem
acredita. Todo dia de manhã, eu encho uma caneca com meu xixi e faço o que a
dona mandou. Parece que vai curar mesmo.
_
Tomara, né seu Agostinho?
_
Vou arranjar uma toalha pra você tomar banho, como você não tem roupa de
dormir, você se enxuga la no quarto que já está preparado e dorme sem roupa
mesmo. Pode ficar tranquilo, que só tem eu e a patroa na casa.
Esqueci completamente da minha família e
fiquei pensando na sabedoria do povo da zona rural, nas curas que eles fazem
com chás, simpatias, banhos e rezas. Agora essa, Urinoterapia! Como será isso?
É um povo tão simples que acredita em todos que trazem novidades,
principalmente quando se trata de curas. Ao mesmo tempo fiquei pensando como o
senhor Agostinho fazia de manhã, será que ele pegava qualquer caneca e fazia
suas necessidades nela e fazia o tratamento? E se fosse uma daquelas canecas
que tomei água ou o café? Na dúvida, perdi a vontade de tomar café na manhã
seguinte.
Dormi um sono leve, acordei com o cantar dos
pássaros e de um galo que parecia estar debaixo de minha cama. Rumei para a
cozinha e a mulher de seu Agostinho disse que ele já estava no curral tirando o
leite, há bem tempo. Antes que chegasse no curral seu Agostinho veio ao meu
encontro e convidou para tomar o café.
Lembrei-me do caso do xixi e disse que não
estava me sentindo bem, e que ia agradecer o café. O Gerônimo logo veio e disse
que se o problema do carro fosse a bateria arriada ele resolveria naquela hora,
era só fazer uma “chupeta”! Ele e outro rapaz foram juntos e lá resolveram
sozinhos o problema, era mesmo a bateria.
Seu agostinho tomou café e comeu muito, eu
fiquei olhando aquela mesa bonita, se eu disse que não estava me sentindo bem
para tomar café, também não poderia comer daquelas maravilhas sobre a mesa;
broa, mandioca cozida, inhame, melado, etc.
Assim que terminou sua refeição, seu Agostinho
me acompanhou para minha saída, me levou no curral para ver o novo bezerro que
tinha nascido naquela noite, e quando ele passou perto do cocho alguma coisa
fez um barulho, era a cabeça do seu Agostinho que tocara em uma caneca
pendurada no telhado do curral.
_
Como eu venho direto para o curral antes do café, é aqui mesmo que faço a minha
sessão de Urinoterapia. Por isso que essa caneca fica aqui!
_
Ah seu Agostinho, pensando bem, acho que vou voltar lá na cozinha e tomar um
cafezinho, acho que sair sem nada no estômago não vai ser muito aconselhável
não é?
_
Vai lá meu filho! Eu não insisti muito, por que vocês da cidade são cheios de
mistério!
