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A sua bênção Tio Quinzin!
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Deus te abençoe meu fio! Entra pra dentro! Como é que vai a patroa e as minina?
_Vão
muito bem tio, e o senhor? Como tem passado?
_Vou
ino como Deus permite! Só essa barriga inchada que me perturba. O doutor disse
que só melhora a poder de remédio, eu nunca fui de tomar remédio, cê sabe!
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E o que o senhor tá fazendo aí, agachado desse jeito, cuidado com a coluna!
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Tô dano uma jeitada nestas tralha aqui. Sua tia vive me xingano por causa
disso, fala que vivo juntano lixo, mas toda vez que ela precisa de alguma
coisa, onde que ela procura? Aqui, no meu lixo. Sabe o que ela veio procurá
hoje? Aquela pecinha de travá o sutião nas costa, o dela é novim, mas hoje em
dia tudo é descartave né? Mexeu, mexeu e remexeu até achar o que queria, depois
deixou desse jeito, oipocevê!
_Tio,
é coisa demais hein? Vai dar um trabalhão para organizar tudo isso.
_É
rapidinho, vai lá dentro vê sua tia e tomá um café, enquanto isso acabo com
isso aqui, depois a gente bate um dedim de prosa.
Deixei que ele continuasse seu trabalho
e entrei para a cozinha. Um cheiro quente e gostoso saía do fogão a lenha, a
fumaça branca azulada contrastava com o queimado da parede, o sol que entrava
pela janela fazia um clarão ao lado do armário, onde um gato preguiçosamente
dormia. Minha tia, com as mãos molhadas, veio me receber com um abraço, sem
colocar as mãos em minhas roupas, aquele abraço forte com cheiro de defumados e
de café. O cuscus com queijo já estava quase pronto e ela mandou-me sentar.
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Espera só um pouquinho que vou desenformar o cuscus. Deve ter muito tempo que
você não come, não é? Como vai as meninas?
_Verdade,
tia. A última vez que comi cuscus foi no velório do meu avô. Muito tempo né? As
meninas vão bem.
_É,
já teve até missa de um ano!
Degustei aquele cuscus com queijo
acompanhado de café com leite. De vez em quando fechava os olhos para lembrar
de minha infância naquelas redondezas. Cheiros, sabores, traquinagens,
safadezas, saudade, muita saudade. Meu tio entrou partindo minhas lembranças
com seu pigarro. Tomou um pouco de café sem leite e disse que não ia comer
cuscus por causa da barriga inchada. Voltamos à varanda onde ele estava.
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Num falei? Num piscar de oio botei tudo nos conforme!
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Mas para que o senhor guarda tanta coisa tio? Hoje a gente encontra de tudo nas
lojas.
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Eu sei, eu sei! Ma num é todo dia que a gente tem dinheiro e num é todo dia que
dá pra ir na cidade. Aqui, na venda de João de Bernarda, num acha nada que
preste. Só mesmo kissuki, açuca, sabão, banha e querozem; o resto a gente tem
que buscá na cidade. Eu qui não sô igual a muitos por aí, que até cove busca na
cidade. Pra quê? Com tanta terra desperdiçada por aí e a gente não plantá nem
pra cumê?. Vai lá fora e oipocevê! Tem arroz, feijão, mio, mandioca, batata,
cebola, alface, cove, inhame, mamão, abroba, e até banha a gente não compra,
sempre tem um ronca e fuça engordano lá no chiquero. Voltano às tralha você
pode oiá aí, tem quase tudo, de A a Z. Qué vê?
Fiquei um pouco pensativo com aquelas
palavras do meu velho tio, imaginando o porquê
de muitos moradores da zona rural não plantarem pelo menos os alimentos
que serão consumidos na casa. Fui até o parapeito da varanda e dei uma olhada
panorâmica nos arredores, dava gosto ver, tudo verde, em cada canto um tipo de
plantação. Meu tio interrompeu meus pensamentos perguntando novamente se eu não
queria ver seus guardados. Voltei-me a ele, e reparei no malão, que virara um
arquivo com vinte e seis gavetas, cada qual com uma letra do alfabeto.
_Tá
tudo aqui ó. Cada gaveta tem coisa iniciada com a letra da tampa. Oipocevê!
Comecei a abrir as gavetas e me alegrar
com tanta inteligência do velho, fui me interessando mais e mais e quis saber o
que tinha cada gaveta. E ele todo bonachão começou a falar.
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Na letra A tem arruela, arame, finete; na letra B tem binóculo, bisturi,
bexiga, (bisturi? Eu pensei, para quê?); na letra C tem canivete, caneta,
cravo; na letra D tem dinamite, dado, dedeira, (meu Deus, dinamite?); na letra
E tem elástico, espelhinho, espora; na letra F tem...
Fiquei pensando o que teria nas letra
K, W, X e Y, deixando ele ir descrevendo tudo que tinha.
_Na
letra H tem hydra.
_Hydra?
O que é isso tio?
Sem pestanejar ele mostrou uma válvula
de descarga de vaso sanitário, de marca Hydra, e foi continuando.
_Na
letra P tem palito, prego, parafuso, palmilha de tênis, de sapato e de bota.
_Palmilha
tio? Pra quê? Quem vai precisar de uma palmilha?
_Hum!
Na letra T tem...
Pensei, tá chegando no W, X, Y e Z,
quero ver!
_Espera
aí tio, duvido que tenha alguma coisa na letra W, posso olhar?
_Claro,
oipocevê!
Abri cuidadosamente a gaveta da letra W
e não é que encontrei uma coisa? Lá dentro estava uma embalagem de vidro, com
um lindo rótulo de couro, escrito Whisky. Claro que não vou e nem quero falar a
marca, respirei fundo e abracei meu tio.
_Puxa
tio, o senhor me surpreende! Preciso vir mais vezes aqui!
_
Venha quando quiser, minino. Da outra veiz traz a dona patroa e as minina.
Quando estávamos desfazendo o abraço
chegou minha prima Constança, com um pé calçado e outro descalço, com o tênis
na mão e perguntando:
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Pai, por acaso o senhor não tem aí uma palmilha? O Rex pegou a palmilha de meu
tênis no varal e comeu a metade dela!
Meu tio todo convencido foi procurar na
gaveta da letra P, pegou várias palmilhas e deu a Constança para que a mesma
escolhesse a que lhe servisse. Enquanto ela escolhia a melhor palmilha ele me
olhava de banda, como ele mesmo sempre diz.
_
De que mesmo a gente tava falano?