Cyd Ramos

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

A aparição



Um facho da lua atravessava a fresta da janela, iluminando parcamente o quarto. No beliche ao lado meus dois companheiros de cela se entregavam em carícias e gemidos, provavelmente pensavam eles que eu dormia, e para não assustá-los permaneci imóvel, sem conseguir me concentrar em outros pensamentos. Por fim, extasiados limparam-se e cada qual procurara seu leito. No relógio da Capela da Boa Morte, as badaladas da meia noite acabavam de soar. Tentei dormir.
Meus olhos não se fechavam. O facho da lua aumentava como se a fresta da janela se rendesse ao seu toque. Levantei-me, corri à janela, uma luz muito forte vinha de fora, não era da lua, procurei-a e para meu espanto ela vinha do chafariz. A água esguichada era uma névoa de estonteante brancura, e dentro daquela névoa ela surgiu. Uma coroa de flores, os cabelos encaracolados escorridos pelos ombros, os seios nus, os braços estendidos a me chamar. Vem!
- É a virgem, é a virgem!! Gritei correndo pelos corredores à procura da porta principal. Minhas mãos tocaram na tranca, outras duas me seguraram pelas costas. 
- É a virgem! Ela está lá fora! Ela está no chafariz e está me chamando! 
- Calma, calma, disse o Monsenhor, você teve um pesadelo! 
- Não, não é pesadelo. Ela está lá fora, e disse vem! Me larga, me solta. Outras mãos já me dominavam por completo.
Julgava que todo o seminário estivesse acordado. Levaram-me ao quarto, meus companheiros que antes gemiam de prazer, agora roncavam como porcos, acordaram com o barulho, e ao ver tanta gente entrando.
- Acabou, cada um para sua cela, rosnou o Monsenhor, agora deite-se e durma. Virei para o canto e senti que quatro olhos me fitavam assustados, deixei que pensassem o que bem entendessem. No sonho, ela apareceu, agora com uma capa transparente, o tom rosa dos bicos de seus seios pareciam botões em flor, seu sorriso, como criança inocente, mordia meu sexo me dominando e me perdendo.
No dia seguinte na mesa do café tinham do que falar, fiz minhas orações, me alimentei e corri para a capela. 
- Padre, tenho que me confessar. 
- Eu estava te esperando, meu filho! Fale! 
- Eu sonhei com ela de novo! Dessa vez ela era uma mulher diferente, dava para ver seus seios e ela mordeu meu sexo, e eu me molhei.
- Deus meu! Você precisa rezar mais meu filho, sua cabeça está povoada de pensamentos pecaminosos, hoje ficará sem alimentar, jejuará o resto do dia, tomará somente água e dormirá no quarto da purificação, vá, é melhor que não se junte aos outros, recolha-se até que alguém lhe chame para o quarto da purificação, em nome do Pai do Filho e do Espírito Santo.
Saí chorando e voltei ao meu quarto. Ouvia ao longe as vozes do canto gregoriano, sentia cada passagem da missa matinal, mas ela era a única imagem, em cada altar lá estava ela, em um sorria, no outro a capa transparente mostrava seus contornos, no outro sua boca parecia me chamar, no outro seus braços estendidos... 
- Está na hora! Uma voz feminina gritara do lado de fora. Saí como se me conduzissem à forca. 
- Vai passar meu filho! Dona Filhinha beijou-me nas faces. 
Entrei no quarto da purificação, no canto um vaso sanitário, no outro uma cama sem colchão, perto da janela com grades, sobre uma mesa um chicote, velas, crucifixo, uma jarra com água e um copo. 
- Depois Monsenhor vem falar com você! Fica com Deus meu filho. 
Saiu a velha senhora trancando-me por fora. O frio do quarto me apavorava, comecei a rezar, e em vez de calma veio a excitação. Esqueci-me da reza e minhas mãos começaram a me acariciar, tudo ficara rodando, sem cor, sem nexo, as coisas retorcidas pareciam levitar pelo quarto, até que um barulho no trinco da porta. 
- Tudo bem meu filho?
- Não sei Monsenhor, eu...
- Você está pálido, o que estava fazendo? 
- Rezando, Monsenhor.
- E porquê o medo? Quem reza não tem medo de nada. 
- Me assustei com o senhor. 
- Só assustamos quando estamos fazendo algo de errado, fale meu filho, o que estava acontecendo quando entrei neste quarto.
- Monsenhor, eu tenho vergonha de dizer. 
- Diga, meu filho! Pode confiar em mim. 
- Bem Monsenhor, eu comecei a rezar, e em vez de vir a paz fiquei excitado, as coisas começaram a perder o nexo e comecei a me acariciar, tudo parecia rodar quando o senhor entrou.
- E acabei te interrompendo, não é? Isso é normal meu filho! Senta aqui, aqui mais perto de mim. Olha filho, o demônio está em todos os lugares, até mesmo em um seminário, você teve um encontro com ele na noite de ontem, por isso essa excitação. 
- Mas Monsenhor, o demônio não pode ser tão bonito quanto aquilo que eu vi, parecia a virgem. 
- E ela te chamava para que? 
- Não sei, ela me estendia os braços. 
- E você a desejou, não é? Você desejaria sexualmente a virgem, nossa mãe, diga filho, você a desejaria? 
- Não, Monsenhor!
- Então filho? Só podia ser o demônio! Vou ter que lhe castigar filho, esse chicote que aí está é para isso, tire suas roupas. Tirei-as ficando de cuecas. 
- As cuecas também, filho. 
O frio que entrava pelo quarto era recebido em meu corpo branco e nu, Monsenhor, com o cabo do chicote começou a me acariciar, lembrei-me dos companheiros de cela e fiquei excitado. Recebi a primeira chibatada nas costas, como não chorei, recebi outra mais outra. Minha excitação aumentava, ele chorava e batia, depois fechou a janela e me masturbou jogando-me na cama. 
- Amanhã tudo estará bem! Fique com Deus meu filho!
A dor moral e física era insuportável, acordei-me com o barulho do trinco, vesti-me e corri para meu quarto, tomei banho, as marcas das chibatadas doíam e estavam bem evidentes. Vi que todos me olhavam com um dó e uma interrogação. Tomei café , não quis ir à missa matinal. Peguei os livros e dirigi-me à sala de aula. Ninguém nada perguntou, talvez já sabendo de tudo, ou talvez proibidos de indagarem sobre o assunto. Veio a noite, o cansaço e o sono me dominaram. Passara a semana sem novidades, ninguém falava nada, as coisas já se aquietavam. Nas missas matinais minha participação era certa e solicitada, até que no fim da semana Monsenhor liberou os seminaristas para visitarem seus familiares.
Para tomar conta das cabras , do jardim e das hortaliças fora eu designado. O seminário vazio, somente Dona Filhinha, Monsenhor e eu. No quarto, agora sozinho, sentia falta de meus companheiros, apesar de saber que me achavam com cara de bobo, pensando que eu dormia e nunca via nada que faziam. 
Peguei um livro, a vida de Santo Agostinho, comecei a ler, a leitura me extasiava, mas o sono veio e coloquei-o na cabeceira. 
Um canto agudo e suave era ouvido lá fora, sem fazer barulho abri a janela, lá estava ela, o mesmo manto, a mesma imagem, ela dançava sensualmente e me estendia os braços, fechei a janela e saí pelos corredores de forma que não chamasse a atenção do Monsenhor e de D. Filhinha. Destranquei a porta e corri. O chafariz esguichava jatos brancos e a luz da lua brincava em suas gotículas.  Onde ela poderia estar? Subi na beirada do chafariz, e ela saiu correndo em direção ao bosque. 
- Espere! Gritei ansioso por conhecê-la. 
Com o meu grito luzes se acenderam e pela porta apareceram o Monsenhor e D. Filhinha com uma tocha nas mãos. Também corri. Já não existia capa, seu corpo nu transfigurava com a luz do luar, com muita sensualidade ela olhava para trás e ria alto, sem que eu a visse mais de perto, pulara no riacho, eu atrás. Tudo escureceu bruscamente, quando abri os olhos estava deitado no colo de D. Filhinha, e o Monsenhor dando tapas em meu rosto tentando me acordar. Olhei para o riacho, só vi uma rabanada de um vulto enorme que subia em seu pequeno leito. 
- Era a virgem, filho? Fitava-me com um leve sorriso o Monsenhor. 
Não vi meus companheiros voltarem do fim de semana, 

quando acordei já estava aqui, alguns dias já haviam passado, e... , com licença, agora tenho que tomar meu calmante.

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

NÃO FUGIREI CONTIGO



Em meus versos que a ti refiro
a lua doura teu corpo ornado de rosas
sonhas acordada contando estrelas
que aos poucos se atiram ao mar.

Em meus olhos que a ti desvio
o orvalho se disfarça em lágrimas
que teimosas insistem em regar
teu jardim secreto de fantasias.

Em meus sonhos que aqui revelo
não  fugirei contigo esta noite
pois quero em noite enluarada

colher as estrelas no céu de tua boca.

Poema inspirado no poema ENCONTRA-ME
de  Rosemari Hauenstain Ruch


domingo, 11 de setembro de 2016

Porta aberta

Ao sair de minha vida 
Não precisa fechar a porta 
Nem entregar as chaves 
Leve-as, talvez um dia queira voltar. 
Não precisa baixar os olhos 
Nem fingir que sofre 
Não carece chorar 
Estufe o peito, levante o queixo 
Saia em alto estilo 
Da mesma forma da entrada 
Pois na minha vida 
Ninguém entra infeliz ou cabisbaixo 
Não deu certo 
Não foi o planejado ou esperado 
Vida que segue

O poeta está louco


Quem pode entender este ser
Que fala de amor quando está só
Silencia se está amando
E ama falar desse sofrimento
Finge amor onde há ódio
Despedida quando se chega
Dor que nunca se sente
Fica sério quando mente
E mente bem esse delinqüente
Melhor não se importar
Quando há choro no seu dizer
Nem mesmo confiança dar
Ao amor, sofrimento e prazer
Vaidoso como rei que andou nu
O poeta está louco e agora ri
Alimenta a vaidade dos que o lê
E vomita seus fingimentos por aí









terça-feira, 16 de agosto de 2016

Cria de Zaratustra



Há um caos dentro de mim
A minha alma transborda
Sei  que darei a luz à uma estrela
E à uma corda bamba para o abismo
Para que passem sem parar
Sem olhar para trás ou para baixo
Sei que logo esquecerão  de mim
Pois dispenso os agradecimentos
Das minhas poucas virtudes
Estou sempre em sucumbência
Vivo extinguindo-me. 


segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Punição

Quero estar nos teus pés 
Na hora que o vento chegar 
E carregar tuas dores novas 
Deixando-te ímpar de amor.

Quando estiveres ardente 
Sonhando úmidos carinhos 
Estarei ali sozinho e íntimo 
Pronto para saciar tua sede


Morrer com o vento a soprar 
Propagar ao mundo o perfume 
Do amor que hora nos pune 
Por ser, por querer, por amar.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Apelo



Não quero me desvencilhar de tuas garras
Sinto-me confortável sob teus cuidados
E meu corpo responde aos teus apelos.
Se às vezes  suspiro profundamente
É a saudade de um passado distante
Ou o desejo de um futuro incerto.
Não gosto te ver triste
Tentando decifrar meus pensamentos
Nem querendo tecer
Uma rede de supostas mentiras
Que insinuas existir
Nesse mar de ilusão que somos nós.
Deixa que a pele
Apele pelo toque da morte
Que experimentamos
A cada adormecer depois do amor.

Acende um cigarro e diz que foi bom!

Sempre


Sempre
que te levo flores
poemas e amores
provo que te amo.
O vinho barato derramo
em nossos lençóis.

Afago teu ego
sorrio e me entrego
te esculpo em mim.
Teu sangue eu aqueço
de tudo me esqueço
já não sou mais teu poeta.
Não, não deixes que as flores murchem,
Nem chores o vinho derramado!
Eles não têm culpa da minha inconstância!

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Musas

musa
I
Refiro
Me
A
Ti
Musa
Idolatrada

II
Beijo
Teus
Pés
E
Tua
Face

III
Entoo
Louvores
Às
Tuas
Qualidades

IV
Recolho-Me
Ao
Meu
Canto
Se
Presente

V
Se
Ausente
Esqueço
Quem
Eu
Sou

VI
Nada
Importa
Desde
Que
Me
Tenhas

I.
Sorriso
Tímido 
Brotou
Em 
Teus
Lábios
II.
Nos
Meus
O
Meu 
Coração
Saiu
III.
Os
Nossos
Juntam-se
Num
Terno
Beijo
IV.
E
Se
Movimentam
Sussurram
Palavras
Desconexas

V. 
Os
Meus
Sempre
Dizem
Te
Amo
VI.
Tímidos
Risos
Nos
Teus
Ainda
Tem



segunda-feira, 16 de maio de 2016

Outras, esquecidas

A
Azáfama 
Do
Sucesso 
Aborta 
Preliminares

Desfalecem
Olhos 
No 
Contato 
Das 
Línguas

Faces
Enrubecem
No
Toque 
Dos 
Lábios.

Beijo -te
As
Mãos 
Faces 
E
Pés

Todos 
Limões 
Recebidos 
Viraram 
Caipivodka 
Bebi


Lava-me
Senhor
Pés 
Mãos 
Cabeça 
Espírito

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Aldravias desconexas

I.
Cavo 
Ambiguidades!
Unhas
Sujas 
De 
Terra.

II.
Ansioso
Como 
Eu
Quero 
Tudo 
Ontem

III.
Quando 
Feliz 
Rio 
Espalhafatosamente 
Nunca 
Mais-ou-menos

IV.
Amamos 
Escandalosamente 
Esculpimos 
Tragédias 
Nas 
Estrelas

V.
Sintonizei-me
No
Amor
Tudo 
Conspirou 
Favoravelmente

VI.
Tocha 
Olímpica 
Vem 
Dorme 
Agora 
Discórdia



domingo, 20 de março de 2016

Decifrando-se

Sou arte,
Parte de um estandarte,
Que se mostra altaneiro,
Conforme os ventos sopram.
Sou nota musical de uma sinfonia inacabada.

quinta-feira, 17 de março de 2016

E se ...



E se ...

Eu me calo o tempo todo, tenho medo.
Medo de agredir meus amigos com palavras,
De soltar o meu grito e ele não ser ouvido
Ou ser entendido por quem é de direito.
O nó na garganta incita meu silêncio!!!

Somos o tempo todo camaleões urbanos,
Um dia estamos vestindo preto para isso,
Branco para aquilo, azul para aquilo outro,
Rosa, amarelo, vermelho e muitas outras.
Bandeiras se levantam agressoras  e belas!

Eu, como um avestruz enfio a cara na areia
E espero o tempo passar. Mas até quando?  
Revolta-me o ostracismo, o partidarismo,
A visão em direção ao próprio umbigo.

Agredimo-nos por questões filosóficas
Enquanto nosso país caminha errante.
E se tudo isso fosse bem diferente, será?


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Cyd Ramos, textos, músicas e poesias