Cyd Ramos

terça-feira, 25 de julho de 2017

Área do Tuiuiú

Por que será que os barraqueiros gritam tanto? Acordo cedo, pego minhas coisas para ir para a praia e antes que eu chegue no calçadão, um barraqueiro me interpela implorando para eu ir para a sua barraca.
-Aí patrão, não cobramos barraca nem cadeiras, desde que consuma  um petisco.  Mas caso não consuma, fazemos um preço bacana para o senhor.
Explico pra ele que não pretendo consumir nada, nem quero me sentar numa barraca onde provavelmente ficarei encurralado pelas outras barracas e o monte de banhistas que ali estarão, explico ainda que preciso ficar num local mais isolado, onde eu possa pensar, meditar, quem sabe dormir. Sem querer acabo confidenciando ao meu novo amigo que não tenho conseguido dormir ultimamente, é tanto calor, é tanta dor nas costas, na coluna e nas pernas.
- Ah, então o patrão está precisando é de um passeio de barco pela orla, visitar uns recantos tranqüilos onde o senhor possa descansar, o barqueiro deixará o senhor bem à vontade e só sairá de lá quando o senhor quiser sair. Fica um precinho legal. E também se o patrão quiser companhia posso lhe arranjar o que o senhor quiser, meninas ou meninos, e também posso lhe arranjar algum chazinho levanta defunto.
Mais uma vez explico pra ele que não quero nada disso, que quero é paz, ficar na minha solidão sem ser incomodado por nada.  Mas percebo que a vontade dele de me agradar ou mesmo  defender o seu ganha-pão é tão intensa que acabo cedendo.
- Senhor, então me consiga uma barraca mais afastada dos banhistas, uma cadeira e apenas água mineral. Não quero petisco nem mais nada. Lhe pago o aluguel da barraca e da cadeira mas por favor, quero ficar só e em paz.
-Claro patrão, o senhor vai ter o que quer. Pode ficar tranqüilo, que nessa área é o traficante Tuiuiú quem controla. Quando alguém chega aqui e pede tranqüilidade, ninguém incomoda ele. 
Chegando ao local onde meu amigo possui as barracas, percebo que tudo está bem organizado. A quantidade de barracas dispostas ordenadamente colorem a praia, e entre elas a imensidão de banhistas com suas roupas coloridas e corpos seminus. Aos poucos relaxo a minha guarda e começo a ter vontade de estar entre eles, talvez seja isso que esteja me faltando, me misturar com o povo, deixar que me interpelem e permitir que minha vida seja mais leve, mas me lembro do que o barraqueiro disse, área controlada por um traficante de nome Tuiuiú?  O medo toma conta do meu pensamento, não consigo relaxar, fico tentando entender o porquê das coisas serem assim, o porquê da inversão de valores, o porquê de não estarmos protegidos pelas organizações de direito.
Começo a pensar nos problemas que assolam o nosso país e o mundo, e, mais uma vez sei que não conseguirei relaxar, sei que não conseguirei encontrar uma saída, sei que devo voltar pra casa e me trancar.
- E aí patrão, está bom aí?

Pego minhas coisas, pago a água mineral e o aluguel da barraca e da cadeira e saio sem responder ao meu amigo. Não sei se irei à praia tão cedo.

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