Por
que será que os barraqueiros gritam tanto? Acordo cedo, pego minhas coisas para
ir para a praia e antes que eu chegue no calçadão, um barraqueiro me interpela implorando
para eu ir para a sua barraca.
-Aí
patrão, não cobramos barraca nem cadeiras, desde que consuma um petisco.
Mas caso não consuma, fazemos um preço bacana para o senhor.
Explico
pra ele que não pretendo consumir nada, nem quero me sentar numa barraca onde
provavelmente ficarei encurralado pelas outras barracas e o monte de banhistas
que ali estarão, explico ainda que preciso ficar num local mais isolado, onde
eu possa pensar, meditar, quem sabe dormir. Sem querer acabo confidenciando ao
meu novo amigo que não tenho conseguido dormir ultimamente, é tanto calor, é
tanta dor nas costas, na coluna e nas pernas.
-
Ah, então o patrão está precisando é de um passeio de barco pela orla, visitar
uns recantos tranqüilos onde o senhor possa descansar, o barqueiro deixará o
senhor bem à vontade e só sairá de lá quando o senhor quiser sair. Fica um
precinho legal. E também se o patrão quiser companhia posso lhe arranjar o que
o senhor quiser, meninas ou meninos, e também posso lhe arranjar algum chazinho
levanta defunto.
Mais
uma vez explico pra ele que não quero nada disso, que quero é paz, ficar na
minha solidão sem ser incomodado por nada.
Mas percebo que a vontade dele de me agradar ou mesmo defender o seu ganha-pão é tão intensa que
acabo cedendo.
-
Senhor, então me consiga uma barraca mais afastada dos banhistas, uma cadeira e
apenas água mineral. Não quero petisco nem mais nada. Lhe pago o aluguel da
barraca e da cadeira mas por favor, quero ficar só e em paz.
-Claro
patrão, o senhor vai ter o que quer. Pode ficar tranqüilo, que nessa área é o
traficante Tuiuiú quem controla. Quando alguém chega aqui e pede tranqüilidade,
ninguém incomoda ele.
Chegando
ao local onde meu amigo possui as barracas, percebo que tudo está bem
organizado. A quantidade de barracas dispostas ordenadamente colorem a praia, e
entre elas a imensidão de banhistas com suas roupas coloridas e corpos seminus.
Aos poucos relaxo a minha guarda e começo a ter vontade de estar entre eles,
talvez seja isso que esteja me faltando, me misturar com o povo, deixar que me
interpelem e permitir que minha vida seja mais leve, mas me lembro do que o
barraqueiro disse, área controlada por um traficante de nome Tuiuiú? O medo toma conta do meu pensamento, não
consigo relaxar, fico tentando entender o porquê das coisas serem assim, o
porquê da inversão de valores, o porquê de não estarmos protegidos pelas
organizações de direito.
Começo
a pensar nos problemas que assolam o nosso país e o mundo, e, mais uma vez sei
que não conseguirei relaxar, sei que não conseguirei encontrar uma saída, sei
que devo voltar pra casa e me trancar.
-
E aí patrão, está bom aí?
Pego
minhas coisas, pago a água mineral e o aluguel da barraca e da cadeira e saio
sem responder ao meu amigo. Não sei se irei à praia tão cedo.