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Perdi minha bandeira!
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Mas como? Você estava com ela agorinha mesmo!
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Não sei, roubaram ela!
Acabávamos
de presenciar os policiais militares destruindo as portas de vidro da Câmara,
para não sermos vistos por eles, saímos em debandada para a praça onde estavam
os outros manifestantes. Minha bandeira
com o símbolo do meu partido, ficou no caminho. Com a pressa de chegarmos na
praça nem senti que ela se perdera.
Lembro-me vagamente que dei de encontro com um policial que corria em
direção contrária e ele me apertou o braço esquerdo de forma estranha.
Os
outros manifestantes ateavam fogo nos sanitários móveis que ali se encontravam
à espera de um grande movimento naquele primeiro de maio. Nas janelas da Câmara
os servidores acenavam com lenços brancos como se pedissem socorro. Sirenes de carros
de bombeiros e viaturas policiais se misturavam com os gritos dos manifestantes
que aumentavam a cada segundo.
Do
meu lado direito uma menina de mais ou menos treze anos segurava uma rosa
vermelha nas mãos e dançava como se estivesse no Teatro Municipal. O barulho
ensurdecedor para muitos a incitava a dançar. A praça foi-se acalmando e por um
instante todos miravam aquela criatura que bailava na ponta dos pés segurando
uma rosa. Uma chuva fina começou a cair e os raios do sol formaram um arco-íris
sobre a praça. Era um sinal que uma força superior estava por ali.
Bombas
de gás lacrimogêneo estouraram no meio dos manifestantes e todos correram para
lados diversos, ficando no centro da praça somente a menina na ponta dos
pés. Policiais com metralhadoras
começaram a atirar para cima e um misto de dor e desespero tomou conta de todos
os presentes naquela praça. Uma rosa
vermelha despedaçava e seu sangue escorria como uma nascente de um rio triste.
Mulheres
tiravam seus casacos e tentavam em vão estancar o sangue, pois os furos eram muitos, o sangue era muito, a
tristeza era muita, a revolta enorme.
Homens marchavam em direção aos policiais que tentavam se proteger com
os escudos apontando suas armas.
Tambores rufavam ferozmente, bandeiras
agitavam nos ares, mais sangue escorria no meio do povo.
Do
décimo andar da Câmara uma mulher se atirou pelos ares espatifando perto dos
manifestantes. Um homem utilizando de um
auto-falante começou a pedir calma a todos, mas o caos já se formara. Como não sabíamos o que fazer, começamos a
cantar uma canção de paz, aos poucos outros se juntaram ao nosso canto e como
num passe de mágica a praça tornou-se numa festa, onde sangue, suor e conflito
se misturavam num frenesi inexplicável.
Aos
poucos, homens, mulheres e crianças se abraçaram num choro que podia ser
traduzido por satisfação e revolta. O
sangue nas nossas vestes, nos nossos corpos e na nossa boca era visível e o
odor era considerável. Não havia policiais, não havia pessoas na Câmara, não
havia barulho. Somente os manifestantes que se abraçavam naquela praça
molhada, bandeiras caídas, tambores espatifados, silêncio.
Voltamos
pra casa com aquele amargo na língua, sem fome, sem sede, sem sentimento de
ódio ou de amor, sem a certeza de ser vencedores ou vencidos. Um banho quente,
uma xícara de chá, um cobertor e um sofá para ver os noticiários daquele dia
indecifrável.
“Um
bando de baderneiros, destruíram as portas de vidro da Câmara nas manifestações
de hoje. Liderados por um homem de meia
idade, atacaram as pessoas na praça, levando a óbito uma criança de treze anos
que dançava com uma rosa vermelha nas mãos.
Uma mulher ao ver a criança sendo assassinada pulou das janelas da
Câmara, causando uma comoção geral em todos os manifestantes, que se abraçaram
e choraram por um bom tempo na praça Primeiro de Maio. O líder dos baderneiros foi visto pelas
câmeras na hora que fugia após a quebra
das portas de vidro. A bandeira que estava com ele tem o seu nome gravado. Os policiais esperam que ele se entregue
ainda esta noite”.