Cyd Ramos

terça-feira, 25 de julho de 2017

Bandeira perdida


- Perdi minha bandeira!
- Mas como? Você estava com ela agorinha mesmo!
- Não sei, roubaram ela!
Acabávamos de presenciar os policiais militares destruindo as portas de vidro da Câmara, para não sermos vistos por eles, saímos em debandada para a praça onde estavam os outros manifestantes.  Minha bandeira com o símbolo do meu partido, ficou no caminho. Com a pressa de chegarmos na praça nem senti que ela se perdera.  Lembro-me vagamente que dei de encontro com um policial que corria em direção contrária e ele me apertou o braço esquerdo de forma estranha.
Os outros manifestantes ateavam fogo nos sanitários móveis que ali se encontravam à espera de um grande movimento naquele primeiro de maio. Nas janelas da Câmara os servidores acenavam com lenços brancos como se pedissem socorro. Sirenes de carros de bombeiros e viaturas policiais se misturavam com os gritos dos manifestantes que aumentavam a cada segundo.
Do meu lado direito uma menina de mais ou menos treze anos segurava uma rosa vermelha nas mãos e dançava como se estivesse no Teatro Municipal. O barulho ensurdecedor para muitos a incitava a dançar. A praça foi-se acalmando e por um instante todos miravam aquela criatura que bailava na ponta dos pés segurando uma rosa. Uma chuva fina começou a cair e os raios do sol formaram um arco-íris sobre a praça. Era um sinal que uma força superior estava por ali.
Bombas de gás lacrimogêneo estouraram no meio dos manifestantes e todos correram para lados diversos, ficando no centro da praça somente a menina na ponta dos pés.  Policiais com metralhadoras começaram a atirar para cima e um misto de dor e desespero tomou conta de todos os presentes naquela praça.  Uma rosa vermelha despedaçava e seu sangue escorria como uma nascente de um rio triste.
Mulheres tiravam seus casacos e tentavam em vão estancar o sangue, pois  os furos eram muitos, o sangue era muito, a tristeza era muita, a revolta enorme.  Homens marchavam em direção aos policiais que tentavam se proteger com os escudos apontando suas armas.  Tambores rufavam ferozmente, bandeiras  agitavam nos ares, mais sangue escorria no meio do povo.
Do décimo andar da Câmara uma mulher se atirou pelos ares espatifando perto dos manifestantes.  Um homem utilizando de um auto-falante começou a pedir calma a todos, mas o caos já se formara.  Como não sabíamos o que fazer, começamos a cantar uma canção de paz, aos poucos outros se juntaram ao nosso canto e como num passe de mágica a praça tornou-se numa festa, onde sangue, suor e conflito se misturavam num frenesi inexplicável.
Aos poucos, homens, mulheres e crianças se abraçaram num choro que podia ser traduzido por satisfação e revolta.  O sangue nas nossas vestes, nos nossos corpos e na nossa boca era visível e o odor era considerável. Não havia policiais, não havia pessoas na Câmara, não havia barulho.  Somente os  manifestantes que se abraçavam naquela praça molhada, bandeiras caídas, tambores espatifados, silêncio.
Voltamos pra casa com aquele amargo na língua, sem fome, sem sede, sem sentimento de ódio ou de amor, sem a certeza de ser vencedores ou vencidos. Um banho quente, uma xícara de chá, um cobertor e um sofá para ver os noticiários daquele dia indecifrável.
“Um bando de baderneiros, destruíram as portas de vidro da Câmara nas manifestações de hoje.  Liderados por um homem de meia idade, atacaram as pessoas na praça, levando a óbito uma criança de treze anos que dançava com uma rosa vermelha nas mãos.  Uma mulher ao ver a criança sendo assassinada pulou das janelas da Câmara, causando uma comoção geral em todos os manifestantes, que se abraçaram e choraram por um bom tempo na praça Primeiro de Maio.  O líder dos baderneiros foi visto pelas câmeras  na hora que fugia após a quebra das portas de vidro. A bandeira que estava com ele tem o seu nome gravado.  Os policiais esperam que ele se entregue ainda esta noite”.






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