Aparição
Um facho da lua atravessava a fresta da janela, iluminando parcamente o quarto. No beliche ao lado meus dois companheiros de cela se entregavam em carícias e gemidos, provavelmente pensavam eles que eu dormia, e para não assustá-los permaneci imóvel, sem conseguir me concentrar em outros pensamentos. Por fim, extasiados limparam-se e cada qual procurara seu leito. No relógio da Capela da Boa Morte, as badaladas da meia noite acabavam de soar. Tentei dormir.
Meus olhos não se fechavam. O facho da lua aumentava como se a fresta da janela se rendesse ao seu toque. Levantei-me, corri à janela, uma luz muito forte vinha de fora, não era da lua, procurei-a e para meu espanto ela vinha do chafariz. A água esguichada era uma névoa de estonteante brancura, e dentro daquela névoa ela surgiu. Uma coroa de flores, os cabelos encaracolados escorridos pelos ombros, os seios nus, os braços estendidos a me chamar. Vem!
- É a virgem, é a virgem!! Gritei correndo pelos corredores à procura da porta principal. Minhas mãos tocaram na tranca, outras duas me seguraram pelas costas.
- É a virgem! Ela está lá fora! Ela está no chafariz e está me chamando!
- Calma, calma, disse o Monsenhor, você teve um pesadelo!
- Não, não é pesadelo. Ela está lá fora, e disse vem! Me larga, me solta. Outras mãos já me dominavam por completo.
Julgava que todo o seminário estivesse acordado. Levaram-me ao quarto, meus companheiros que antes gemiam de prazer, agora roncavam como porcos, acordaram com o barulho, e ao ver tanta gente entrando.
- Acabou, cada um para sua cela, rosnou o Monsenhor, agora deite-se e durma. Virei para o canto e senti que quatro olhos me fitavam assustados, deixei que pensassem o que bem entendessem. No sonho, ela apareceu, agora com uma capa transparente, o tom rosa dos bicos de seus seios pareciam botões em flor, seu sorriso, como criança inocente, mordia meu sexo me dominando e me perdendo.
No dia seguinte na mesa do café tinham do que falar, fiz minhas orações, me alimentei e corri para a capela.
- Padre, tenho que me confessar.
- Eu estava te esperando, meu filho! Fale!
- Eu sonhei com ela de novo! Dessa vez ela era uma mulher diferente, dava para ver seus seios e ela mordeu meu sexo, e eu me molhei.
- Deus meu! Você precisa rezar mais meu filho, sua cabeça está povoada de pensamentos pecaminosos, hoje ficará sem alimentar, jejuará o resto do dia, tomará somente água e dormirá no quarto da purificação, vá, é melhor que não se junte aos outros, recolha-se até que alguém lhe chame para o quarto da purificação, em nome do Pai do Filho e do Espírito Santo.
Saí chorando e voltei ao meu quarto. Ouvia ao longe as vozes do canto gregoriano, sentia cada passagem da missa matinal, mas ela era a única imagem, em cada altar lá estava ela, em um sorria, no outro a capa transparente mostrava seus contornos, no outro sua boca parecia me chamar, no outro seus braços estendidos...
- Está na hora! Uma voz feminina gritara do lado de fora. Saí como se me conduzissem à forca.
- Vai passar meu filho! Dona Filhinha beijou-me nas faces.
Entrei no quarto da purificação, no canto um vaso sanitário, no outro uma cama sem colchão, perto da janela com grades, sobre uma mesa um chicote, velas, crucifixo, uma jarra com água e um copo.
- Depois Monsenhor vem falar com você! Fica com Deus meu filho.
Saiu a velha senhora trancando-me por fora. O frio do quarto me apavorava, comecei a rezar, e em vez de calma veio a excitação. Esqueci-me da reza e minhas mãos começaram a me acariciar, tudo ficara rodando, sem cor, sem nexo, as coisas retorcidas pareciam levitar pelo quarto, até que um barulho no trinco da porta.
- Tudo bem meu filho?
- Não sei Monsenhor, eu...
- Você está pálido, o que estava fazendo?
- Rezando, Monsenhor.
- E porquê o medo? Quem reza não tem medo de nada.
- Me assustei com o senhor.
- Só assustamos quando estamos fazendo algo de errado, fale meu filho, o que estava acontecendo quando entrei neste quarto.
- Monsenhor, eu tenho vergonha de dizer.
- Diga, meu filho! Pode confiar em mim.
- Bem Monsenhor, eu comecei a rezar, e em vez de vir a paz fiquei excitado, as coisas começaram a perder o nexo e comecei a me acariciar, tudo parecia rodar quando o senhor entrou.
- E acabei te interrompendo, não é? Isso é normal meu filho! Senta aqui, aqui mais perto de mim. Olha filho, o demônio está em todos os lugares, até mesmo em um seminário, você teve um encontro com ele na noite de ontem, por isso essa excitação.
- Mas Monsenhor, o demônio não pode ser tão bonito quanto aquilo que eu vi, parecia a virgem.
- E ela te chamava para que?
- Não sei, ela me estendia os braços.
- E você a desejou, não é? Você desejaria sexualmente a virgem, nossa mãe, diga filho, você a desejaria?
- Não, Monsenhor!
- Então filho? Só podia ser o demônio! Vou ter que lhe castigar filho, esse chicote que aí está é para isso, tire suas roupas. Tirei-as ficando de cuecas.
- As cuecas também, filho.
O frio que entrava pelo quarto era recebido em meu corpo branco e nu, Monsenhor, com o cabo do chicote começou a me acariciar, lembrei-me dos companheiros de cela e fiquei excitado. Recebi a primeira chibatada nas costas, como não chorei, recebi outra mais outra. Minha excitação aumentava, ele chorava e batia, depois fechou a janela e me masturbou jogando-me na cama.
- Amanhã tudo estará bem! Fique com Deus meu filho!
A dor moral e física era insuportável, acordei-me com o barulho do trinco, vesti-me e corri para meu quarto, tomei banho, as marcas das chibatadas doíam e estavam bem evidentes. Vi que todos me olhavam com um dó e uma interrogação. Tomei café , não quis ir à missa matinal. Peguei os livros e dirigi-me à sala de aula. Ninguém nada perguntou, talvez já sabendo de tudo, ou talvez proibidos de indagarem sobre o assunto. Veio a noite, o cansaço e o sono me dominaram. Passara a semana sem novidades, ninguém falava nada, as coisas já se aquietavam. Nas missas matinais minha participação era certa e solicitada, até que no fim da semana Monsenhor liberou os seminaristas para visitarem seus familiares.
Para tomar conta das cabras , do jardim e das hortaliças fora eu designado. O seminário vazio, somente Dona Filhinha, Monsenhor e eu. No quarto, agora sozinho, sentia falta de meus companheiros, apesar de saber que me achavam com cara de bobo, pensando que eu dormia e nunca via nada que faziam.
Peguei um livro, a vida de Santo Agostinho, comecei a ler, a leitura me extasiava, mas o sono veio e coloquei-o na cabeceira.
Um canto agudo e suave era ouvido lá fora, sem fazer barulho abri a janela, lá estava ela, o mesmo manto, a mesma imagem, ela dançava sensualmente e me estendia os braços, fechei a janela e saí pelos corredores de forma que não chamasse a atenção do Monsenhor e de D. Filhinha. Destranquei a porta e corri. O chafariz esguichava jatos brancos e a luz da lua brincava em suas gotículas. Onde ela poderia estar? Subi na beirada do chafariz, e ela saiu correndo em direção ao bosque.
- Espere! Gritei ansioso por conhecê-la.
Com o meu grito luzes se acenderam e pela porta apareceram o Monsenhor e D. Filhinha com uma tocha nas mãos. Também corri. Já não existia capa, seu corpo nu transfigurava com a luz do luar, com muita sensualidade ela olhava para trás e ria alto, sem que eu a visse mais de perto, pulara no riacho, eu atrás. Tudo escureceu bruscamente, quando abri os olhos estava deitado no colo de D. Filhinha, e o Monsenhor dando tapas em meu rosto tentando me acordar. Olhei para o riacho, só vi uma rabanada de um vulto enorme que subia em seu pequeno leito.
- Era a virgem, filho? Fitava-me com um leve sorriso o Monsenhor.
Não vi meus companheiros voltarem do fim de semana,
quando acordei já estava aqui, alguns dias já haviam passado, e...